Os quatro livros sucedem-se no mesmo tempo. As personagens encontram-se entre livros. No entanto vivem de forma diferente esse tempo. Para uns é um tempo de guerra, para outros é tempo de loucura ou de poder. Na Máquina de Joseph Walser a personagem faz uma colecção muito peculiar, peças metálicas que não ultrapassam os dez centímetros. Walser está convencido que é indiferente aos acontecimentos exteriores, apenas é importante a sua colecção que se encontra dentro de pequenas caixas e de qual anota todas as características, procedências e medidas. No entanto W. descobre um dia, ao recolher uma peça de uma arma, que está a interferir no mundo, porque sem aquela peça haverá um soldado ou um guerrilheiro que não pode usar a sua arma, por isso não pode matar. Mais coisas sucedem-se. Gonçalo M Tavares é dono de uma narrativa única e peculiar, de um mundo minucioso.
Klober dizia ” Combater é um acto louvável, mas que depende de tantas particularidades da força como da mente. Um louco pode combater sozinho, um homem desprovido de qualquer qualidade de raciocínio, um homem de pensamento medíocre pode lutar sozinho. Mas a explicação solitária já requer um outra altitude – utilizemos esta palavra – da inteligência. Qualquer instinto criativo começa com esta necessidade antiga que a memória colectiva faz por esquecer: somos criativos porque queremos encontrar uma explicação solitária, uma explicação individual, uma explicação que não tenha par, que não tenha duplo, que não seja possível acompanhar, uma explicação egoísta, dirão alguns, sim, egoísta, claro. Mais que isso: rancorosa: uma explicação que odeia as outras, que as combate; mas combate não para vencer somente as outras explicações, mas para vencer, derrotar, eliminar os próprios homens portadores de outras explicações solitárias. A explicação solitária, a ciência individual por excelência, no limite, quer eliminar todas as outras existências, porque as odeia; e odeia-as simplesmente porque outra inteligência e outra possibilidade de solidão são a prova de que sozinhos não ocupamos o mundo.”
” Walser lembrava-se agora das palavras de Klober, o homem que dormia com a sua própria mulher, e que tranquilamente continuava a dizer frases grandes à sua frente, como se não parasse de discursar para uma plateia. O que Klober dissera sobre o ódio necessário à grandeza e o isolamento que esta pressupõe, como tal lhe parecia agora falso. Um grande Homem, ou pelo menos aqueles que são considerados como tal, quer ser admirado, sempre, isto é: não é forte ao ponto de não desejar o olhar dos outros. Se é admirado é porque o desejou. E Klober queria ser um grande Homem; quando repetia as suas frases intensas ele queria realmente ser admirado Falava em imposição solitária, orgulhosa, mas ao dizer estas frases, ao não se limitar a pensá-las para si próprio – mantendo-as num circuito privado, não exibicionista -, ao dizê-las publicamente contradizia-se. O acto de dizer essas frases contradizia o que era dito nelas”
Gonçalo M. Tavares in: A Máquina de Joseph Walser
