Devia ter feito o inventário de uma das salas, devia. Mas no café encontrei o Sr. Carlos que depois de dar um moedinha à minha filha e à minha sobrinha (um hábito que as pessoas tinham de dar uma moedinha às crianças para um rebuçado) apresentou-se pela terceira vez (já nos tínhamos conhecido) e fez querer saber quem eu era. Claro que tivemos que explicar três vezes e dizer o meu nome umas vinte. O Sr. Carlos nasceu em 1920, alfacinha como eu, apaixonou-se por uma moça de Aveiro, tal como eu. O Sr. Carlos engraçou comigo, ou talvez seja um truque velho para arranjar conversa por umas horas, para espantar a solidão. De conversa em conversa sobe que tinha sido funcionário público, daqueles que usam pistola, inspector das actividades económicas. Mas isso pouco interessa, o que interessa é que chegamos às partes onde ele confessou umas malandrices da juventude. Quem se confessa assim, com esta honestidade, está perdoado. Nos Amigos de Apollo que ele frequentava tinha lá quatro namoradas, ou talvez isso não seja para contar, talvez seja melhor não vos contar mais, há coisas que nunca se contam, quando um amigo nos conta. Parecia que estava a ler o livro “Leite Derramado”, porque foram várias as vezes que o Sr. Carlos se repetiu a contar as suas histórias, umas em jeito de confessionário, como no livro do Chico Buarque, foram várias as vezes que o Sr. Carlos me contou episódios espalhados da sua vida, espalhados e baralhados. Chorou quando falou da sua “queridinha”, riu dos momentos bons que passou com ela. Está aqui, sem dúvida, uma história de amor que nem a morte os separou, porque o Sr. Carlos continua a falar da sua “queridinha” como se ela estivesse viva e está viva na sua cabeça. Esta foi uma tarde que valeu, porque há uma poética nisto, e um professor tem que saber receber momentos de poesia como este. O Sr. Carlos tem o nome Rodrigues como eu, talvez sejamos parentes, talvez sejamos irmãos, irmãos com 48 anos de diferença. Afinal não são todos os homens irmãos? Mas o Sr. Carlos disse-me que há coisas que ele só conta a ele próprio, que são tão boas que ele guarda só para ele. Quando ouvi isso, deu-me para imaginar que coisas boas são essas. Esta foi uma tarde de inventário, não dos alicates e serras da sala de aula, mas dum universo humano, um inventário que nunca está esgotado e nunca acaba. Este talvez seja o inventário dos escritores, um inventário inventado porque sem querer qualquer um conta mais história do que a vivida, porque detrás do rosto deste homem existe muito, existe um universo enorme, quase infinito.
Geométricas
Procurar as orgânicas, os movimentos espontâneos, isto é, compreender a natureza para depois demarcar na sua geografia. A construção também tem que ser uma desconstrução. É necessário reflectir e inflectir. Procurar está na essência da geometria. Resolver, encontrar o arco, ligar dois pontos, enfrentar um projecto e uma ideia, empreender uma lógica, um mundo.Sr. Carlos
2 Comentários »
ups! esqueci de me identificar.
isabel costa
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É sempre um prazer ler os teus escritos!
Fique bastante comovida com a tua história da história do Sr. Carlos.
Há que aproveitar esses momentos, estes não esperam , são únicos no tempo e no espaço.
O inventário, claro, esse está à tua espera! :)