Sentir o Planeta Terra

Os alunos do 2º ano da licenciatura de Design da Universidade de Aveiro passaram por uma expriência fundamental para a sua formação. Juntamente com a empresa Vista Alegre criaram “um conjunto de novos artefactos experimentais.” Que prezam pela beleza, criatividade e pelo conceito apresentado ” Um novo modelo que pensa o Design como disciplina privilegiada para dar respostas adequadas e propor soluções inovadoras à forma como o homem se deve relacionar com o seu meio.” Assim sendo “Uma das prioridades deste projecto prende-se com a sensibilização dos consumidores para a sustentabilidade do seu património natural e cultural, pelo que a concepção destes artefactos partiu do respeito pelas regras base de um desenho verde e comunicativo.” e principalmente “A dimensão cientifica deste projecto possibilitou uma nova argumentação para a concepção deste tipo de produtos, evitando as usuais “colagens” à iconografia local.”
A exposição é no átrio da Reitoria da Universidade de Aveiro – inauguração no dia 5 Junho, dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia, às 17h30, até ao 12 de Junho de 2008, vale a pena ir ver.



Maurice Barrett – Porquê a Educação Artística

Maurice Barrett considera importante um ensino que valorize os aspectos do desenvolvimento pessoal e social. “Uma sociedade onde todos os seus elementos estão conformados com o sistema, é uma sociedade pobre. A escola tem de desenvolver a consciência de si próprio no aluno, de forma a enriquecer a sociedade com a variedade dos indivíduos.”
Como é que a arte poderá ter um papel importante no desenvolvimento pessoal e social? “O «eu» necessita meios para tornar explícitas as ideias e pensamentos, de forma a haver uma base de negociações entre ele e a sociedade.” “O aluno necessita descobrir-se a si próprio, mas também precisa de descobrir como é que os principais interesses, obsessões, necessidades e capacidades se relacionam com os outros e com a sociedade de uma maneira geral. Esta compreensão terá que de vir através da experiência, e uma das funções principais da educação artística é a de fornecer oportunidade para o aluno a conseguir.”
MB considera que uma componente essencialmente didáctica faz um aluno ficar “…adaptado à sociedade mas o seu «eu» é negligenciado” e “…um sistema educativo baseado na «norma»…” destoem a sensibilidade da criança. Por isso é fundamental um programa baseado no processo porque “A educação em arte diz respeito ao desenvolvimento dos sentidos como meio de ‘receber’ (repensar, reflectir, questionar, etc.) o nosso mundo e ao processo que utilizamos para simbolizar, exteriorizar, compreender, organizar, exprimir, comunicar e resolver os seus problemas.” Pois “Que os alunos devem ser tratados como pessoas com capacidades de formar juízos justos…”

Imagens à lupa

Imagens à lupa foi o tema preferido este ano lectivo para o projecto escolas e que está em exposição em Serralves na sala do serviço educativo. O tema é de grande interesse e muito oportuno visto que propõe o trabalho fotografia e cinema. Os resultados são muito bons (com prende-se os processos) e aconselha-se a visita a esta exposição a professores.

Muito ferro, muito ferro, muito ferro e pouca Ria – este é o barulho do comboio a passar em Aveiro

Em Aveiro estão a construir uma estrutura de ferro para passar o comboio entre a ria e a cidade. Devem ter aproveitado o ferro de uma ponte de 1800 para ficar mais barata. Mas mais barata não vai ficar, vai sair caro, muito caro, caro para quem gosta da Ria. Há poucos locais para descansarmos os olhos e vermos a Ria, ainda este fim de semana espreitei um deles. Só que agora estão a construir uma linha de ferro a uns bons metros de altura em frente à Ria, mesmo ao lado da A25. No futuro ficamos impossibilitados de ver esta paisagem, vamos ver uma coisa de ferro à frente. Se isso acontecer, não vou querer olhar dali para a Ria. Ninguém vai querer.

O Dia em que a Mata Ardeu – José Fanha

Ilustrações de Maria João Gromicho
O dia em que a mata ardeu é um livro para crianças como eu. Este livro conta-nos a tragédia de um incêndio na mata provocado por uma família de pássaros Bisnaus – que qualquer biólogo mais conhecedor da vida selvagem e dos livros do Fanha os conhece. Mas antes de chegarmos ao incêndio da mata, o José Fanha convida-nos a dar um passeio pela “…minha mata” acrescentando “Minha, minha, não é. Isto é só uma maneira de dizer… Como toda a gente sabe, a natureza não tem dono.” Um passeio com um poeta pela mata é sempre o melhor passeio, pois o Fanha conta-nos, com palavras muito especiais, todos as sensações, sons, texturas, cores etc. E ainda “Na minha mata, que é minha e de toda a gente, tenho alguns amigos especiais: O meu amigo esquilo Rabo Alçado e a sua família saltitona, o veado Venceslau com as hastes enormes, o Coelho Coisa Fofa com os 256 filhos da última ninhada, a coruja Miquelina, o ouriço Olegário e até um ratinho muito simpático chamado Zé Manel.” “Gosto de todas as árvores e plantas da minha mata. Sou amigo dos animais. Ouço a música que o vento faz entre os ramos, vejo a luz que atravessa a folhagem e sinto-me feliz!”. A história (tragédia) começa com um passeio desses pássaros Bisnaus à mata e vejam bem como este pássaros não são tão raros como nós queríamos desejar “Em vez de virem a pé, entraram com o carro pela mata dentro, a deitar fumo para o ar e com o rádio a fazer punca-punca-punca, punca-punca-punca, punca-punca-punca tão alto que até as nuvens tiveram de tapar os ouvidos para não ficarem malucas.” e ” Mal se instalaram, puseram-se logo a fazer porcaria. A filha Bisnica desembrulhou 19 hambúrgueres e encheu-os de molhos amarelos, azuis, verdes e vermelhos. O filho Bisneco comeu 32 pacotes de batatas fritas,…” e assim continuam os hábitos alimentares desses passarocos que no final atiraram todo o lixo para o chão e “O pai, de barriga a rebentar, sentou-se encostado a um tronco e pôs-se a fumar.” Já sabem onde isto foi parar.
Muita coisa acontece nesta história fantástica – vale a pena procurar nas livrarias, por apenas 9€ podemos ler uma história com um final feliz, uma moral profundamente ecológica, encontrar personagens fascinantes e tudo com palavras do Poeta.

Maurice Barrett


(anterior)
Maurice Barrett considera três elementos e que”as suas partes estão interrelacionadas de forma que cada uma é influenciada pela modificação das outras.”
“1. O elemento conceptual – ideias, impulsos, sentimentos – este é o aspecto da arte que trata da realidade pessoal, a formação do conceito, resposta à sensação e á experiência e a realização de fenómenos, símbolos, mitos e fantasias. Opera através da sensação, da emoção, da reminiscência, da associação e da inferência.
2. Elemento operacional – meios, materiais, técnicas – este é o aspecto da arte que diz respeito à natureza física do mundo e das maneiras de o utilizar como meio para o desenvolver e compreender. É através da manipulação daquilo que nos rodeia que conseguimos controlar o meio ambiente para fins pessoais ou sociais. Utilizamos os materiais como meios através dos quais exprimimos e comunicamos as nossas ideias, impulsos, sentimentos. A utilização eficaz destes materiais é conseguida através de técnicas apropriadas, de forma a fazer coincidir os resultados com as nossas concepções.
3. Elementos síntese – a dinâmica das formas visuais – este aspecto diz respeito à estruturação das formas visuais que são utilizadas para realizar a ideia através dos materiais. A percepção é a base deste elemento e envolve a apresentação global do mundo exterior. A sua representação é a forma de arte. A arte é a utilização dos meios para organizar em formas visuais as nossas experiências subjectivas.”
Um pouco como o Francisco Providência diz sobre o design: o Design é “manifestação do desenho, fruto do desejo que persegue um desígnio”
Grande parte das práticas educativas nas nossas escolas são situadas apenas no elemento operacional ou no elemento síntese, ignorando por completo o elemento conceptual que dá voz à criança e lhe permite “…o desenvolvimento da realidade individual de cada um dentro do seu meio natural e social…” MB
(continua)

Pictogramas

 

Pretende-se a resolução de uma problemática da escola, criação de um sistema de orientação da escola com elementos gráficos simplificados com carácter simbólico.

O que se deseja:
Que o aluno crie objectos gráficos de valor comunicativo
Relacione os espaços escolares com conceitos
Investigue formas simbólicas de comunicação visual
O aluno argumente um projecto
O aluno aplique e utilize o desenho para expressão de ideias.

1ª fase – investigação de formas gráficas

2ª fase – Identificação dos espaços escolares e da sinalética necessária para orientação

3ª fase – esboços com ideias de sinalética (individual)
4ª fase – apresentação e discussão das ideias criadas (grupo turma)

5ª fase – geometrização das ideias

6ª fase – execução dos pictogramas e sinalética














Maurice Barrett

Poucas referencias encontro na Web sobre Maurice Barrett, algumas citações, mas pouco sei sobre este pedagogo. Comprei o livro há uns anos “Educação em Arte” traduzido por Isabel Cottinelli Telmo e Irene Balzer Sam Payo e resolvi estuda-lo (ler, sublinhar, pensar e escrever).
Maurice Barrett refere a importância de se fazer um programa para educação artística, visto que ” A arte (educação artística) está a perder terreno por causa da sua aparente falta de habilidade para defender a sua posição. Além de defender a educação em arte junto dos outros professores da escola, a estruturação de um curso ou um programa pode tornar-se o meio de dar coerência à actividade intuitiva do dia a dia que é muitas vezes o fulcro do melhor ensino. A estrutura de um curso pode ser um meio do professor de arte compreender mais claramente o que faz e criar um enquadramento para comunicar aos outros.”(pag.15). Tal como o artista que verbaliza muitas vezes o processo artístico, talvez para o compreender melhor.
MB vê a arte .”…mais como um processo do que como um artefacto.” Esta posição é tremendamente pedagógica e reveste-se de primordial importância, visto que os processos são reveladores de um pensamento e de uma posição do aluno em relação ao mundo.Este livro é uma ferramenta para fundamentar a nossa posição como educadores de artes (MB considera aqui também os aspectos da educação tecnológica – anteriormente considerados trabalhos manuais).
Nas próximas semanas vou continuar a escrever sobre este livro.
(continua)

Linhas, grelhas, manchas, palavras: Desenhos de arte minimalista na colecção do MoMA

Antes de mais é um privilégio ir ver uma exposição organizada pelo MoMA. Depois ir ver uma exposição da arte minimalista dos anos 60 e 70 é fundamental para um professor de EVT. Pude apreciar uma série de experiências plásticas relacionado com aspectos de natureza matemática e com variáveis aleatórias. A relação com o processador é evidente, esse encantamento com a máquina, essa necessidade de repetir os gestos da máquina, essa necessidade de desmistificar a máquina. A exposição está em Serralves.
Artistas:

O Senhor Kraus – Gonçalo M. Tavares

Karl Kraus foi um jornalista que utilizou a sátira como ferramenta do seu discurso literário (eu não conhecia, vou procurar escritos dele). Ler o livro de Gonçalo M. Tavares o Senhor Kraus é rir do principio ao fim, rir de ficar envergonhado – comecei hoje num café, daqueles cafés com televisão (já não se encontra um café sem televisão), virei as costas à televisão e estive a ler quase de seguida, fui interrompido pelas minhas gargalhadas – e as pessoas pensavam que eu era louco a rir sozinho (o que elas não sabiam é que eu não estava sozinho, estava com um livro). Mas concerteza que qualquer pessoa iria rir com este livro. O senhor Kraus é uma personagem que escreve uma crónica para um jornal, quando estamos a ler o livro, estamos a ler a crónica do Senhor Kraus. O Senhor Kraus escreve sobre uma personagem o Chefe e os seus Auxiliares, esse palerma, o Chefe é um político, como todos os políticos, um inútil e ignorante político que governa. Governa mal, como qualquer político, governa o mínimo, gosta muito de ser elogiado (é duvido a um desses elogios que morre).
Este livro é o desmontar do discurso político:
“…
– Quando dizem que não temos meios aéreos para combater o fogo a vontade que dá é dizer: que sabem vocês sobre o conceito de meios aéreos?
– Exactamente, é o que dá vontade de dizer – concordou o outro Auxiliar.
– É que há dois tipos de meios aéreos – explicou o Primeiro Auxiliar. – Os meios aéreos altos e os meios aéreos baixos. Os meios aéreos altos… – … são os voam – completou o Segundo Auxiliar.
– Os meios aéreos baixos…
-…são os que não voam! – Completou o Chefe, com um sorriso de satisfação (adorava completar frases).
…”
O discurso político baseia-se numa lógica onde as palavras têm importância:
” – A questão é simples: os impostos servem para melhorar a vida do país. Certo?
– Certo.
– Portanto…
– Portanto: quanto mais impostos um indivíduo pagar, mais o país melhora a sua qualidade de vida.
…”
Os políticos e os economistas
“…
– Sim, de crença. Temos de passar a ideia de que os impostos são bons para a pessoa que paga impostos. Quanto mais pagar, melhor para ela. É nisso que ela tem de acreditar.
– Oh, Chefe…
– E temos de transmitir isto de um modo pedagógico; utilizando ainda, tanto quanto possível, complexas fórmulas e complexos raciocínios económicos.

– Exacto. Devemos por isso investir ainda na publicidade técnica e obscura. Devemos investir mais na complexidade.
– Temos de contratar mais economistas!
– Isso.”
“Uma enorme comitiva de Economistas entrou nos aposentos centrais. Traziam um relatório gigante. Era o diagnóstico; o estado da economia do país ali estava, ao pormenor. Três meses de trabalho envolvendo mais de 32000 Economistas. Bem remunerados, mas era merecido: o relatório tinha mais de seiscentas páginas. E um índice.
…”
Acho que conheço esta atitude… é próxima.

Bruce Nauman


“O artista é uma espantosa fonte luminosa” Bruce Nauman na Fundação de Serralves de 19 Abril a 06 Julho mostra-se ao mundo em forma de fonte ruidosa. Atrai pelo seu ruído, com peixes de bronze furados, os peixes que ele pescava com o pai quando era pequeno. Dá vontade de ficar por lá, essa foi a minha vontade, ficar ali a ouvir as mil águas a cair dos peixes furados. Certa vez os motores (que não se ouvem porque o barulho da água se sobrepõem) param e surge quase um silêncio, o único som são os pingos de água que persistem – que bom. Depois volta tudo ao mesmo, é uma espécie de cataratas, de rio violento, de fonte. Encanta-nos como o fogo de uma lareira, como as imagens luminosas numa grande cidade. Ficamos ali em estado hipnótico, quase. Realmente o artista é esta fonte luminosa.

Gonçalo M. Tavares na Escola João Afonso em Aveiro


O Gonçalo M. Tavares esteve na escola onde foi aluno mas só se lembra de jogar futebol. Com um pouco de timidez e um ar de criança Gonçalo M. Tavares entrou na biblioteca da escola, não permitiu que lhe guardassem o guarda-chuva porque se iria esquecer dele, amachucou o casaco, colocou por traz, na cadeira. Um certo caos, um terrível pânico de estar ali com gente (acho eu), o “que vou dizer, como vou iniciar a conversa” (penso eu que ele pensou assim). A escola tinha algo preparado que quebrou o gelo, que colocou o Gonçalo a falar, que nunca mais se calou (ainda bem). Respondeu às perguntas, duas horas com Gonçalo M. Tavares foram poucas horas, preferia ficar o dia todo a ouvi-lo.
“Por vezes uma pessoa mente muito e mente mais em autobiografias”
Eu sinto uma grande afinidade com Gonçalo M. Tavares com quase tudo, o não usar o pente, o cair das calças, até o telemóvel é igual ao meu (daqueles que se podem perder porque são baratos), a não ser o facto dele ser uma pessoa com uma enorme cultura e que ter uma descomunal dimensão poética. Mas ele escreve aquilo que eu nunca fui capaz de dizer, por isso vou-me apropriar da escrita dele, vou ser dono dessa escrita, não posso andar a dizer em público que eu escrevi o que ele escreveu porque podem pensar que estou a ser mau, mas vou pensar isso, vou pensar que fui eu que escrevi.

Quando Gonçalo era aluno, nas aulas de EV “como não conseguia desenhar uma mesa, fazia um risco e dava um nome interessante e tinha sempre boa nota.” “O desenho e a escrita estão muito ligados, o S é um desenho antes de ser uma letra.” “Tive sempre muita atracção pelo desenho.” Compreende-se essa relação nas obras de Gonçalo principalmente nas Investigações Geométricas.
Gonçalo chama atenção para a questão da leitura, para a sua importância “Comecei primeiro por ser um leitor, é fundamental ler muito” “A leitura é a primeira parte, a escrita é a segunda parte.” Aconselha, ou antes responde à pergunta de livros que aconselha ler “Moby Dick” de Herman Melville,e “Alice no Pais das Maravilhas” de Lewis Carrol e para adultos “O Homem Sem Qualidades” de Robert Musil e “Cartas a Lucílio de Lúcio Aneu Séneca.
Sobre o método de escrita disse “Primeiro a escrita em estado bruto, escrevo tudo.” “Tem que haver uma gentileza com o leitor, por isso retiro o que está a mais.” “Como um escultor que tira da matéria o que está a mais eu tiro as palavras” “Prefiro as palavras com um significado concreto, que se possam desenhar”
Falou da poesia “Poesia é um encontro raro de palavras”, falou da importância de estarmos armados “A principal arma que podemos ter é o estudo sobre a linguagem. A palavra é que nos rouba, é que nos engana.”
Sobre os livros o Bairro “Construo uma espécie de aldeia do Asterix, um bairro de escritores e artistas que lutam contra a Barbárie”

Sobre a televisão quando espectadores – “A televisão torna imbecil mesmo a pessoa mais inteligente”
Sobre a violência e barbárie “A história da violência do século XX mostra que a violência esteve sempre ligado à racionalidade e não à Loucura.”