Ana Drago

Ana Drago parece ser, daqueles seres extra-terrestre que vivem na assembleia, a única que tem escutado os problemas da escola. Não interpretem as minhas palavras como anti-republicanas, eu sou defensor da república, e da democracia. Mas falta-nos tanto para chegar até lá, e os nossos deputados representam-se bem, apenas aos seus mesquinhos interesses e à da sua classe social, dos seus amigos. Vão-nos iludindo do contrário e nas alturas das eleições, e o povo gosta das camisolinhas coloridas, das bandeiras, da música pimba antes dos comícios, dos computadores oferecidos, etc. E assembleia vai-se enchendo de gente que nada faz para nos representar.

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Vou também, com Manuel

Vou com Manuel pra Pasárgada
Porque aqui sou maltratado,
enxotado, enxovalhado, humilhado,
triturado, torturado, esvaziado,
agredido, sou maldito, infesto,
manifesto esta vontade de ir embora pra Pasárgada.
Fechar esta porta de duas faces,
uma que ri, outra que chora.
Por aqui me usaram,
maldisseram o que criei,
cuspiram nos meus filhos,
queimaram meus papeis,
rasgaram as minhas cortinas,
chamaram-me nomes que nunca tive,
disseram coisas que nunca farei,
tudo em silêncio sem eu ouvir.
Por isso vou com Manuel pra Pasárgada,
lá, não sou amigo do rei,
mas amigo de Manuel.
E também sou um pouco louco
como Joana Rainha de Espanha,
por isso tenho boas hipóteses de sobreviver,
talvez até possa ser convidado para um baile real,
passear entre pinhais, dormir perto do mar,
mergulhar no rio, andar a cavalo.
Ou talvez não.
Seja como for, aqui não fico!

Manuel Bandeira

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Firmin – Sam Savage

rata_firminFirmin é uma ratazana que nasceu e cresceu numa livraria (Pembroke Books – uma espécie de alfarrabista) de um bairro antigo de Boston. Não foi por amor aos livros que a ratazana mãe teve aquela ninhada na livraria, mas foi apenas para se proteger de uns marinheiros que a tentavam caçar. Firmin por nascer perto dos livros começou a saber ler e tornou-se, mais que um rato de biblioteca, tornou-se uma ratazana de livraria. Entre muitas leituras e outras aventuras entre a livraria e uma sala de cinema Firmin vai-nos dando momentos saborosos de boa literatura. Aos poucos vamos conhecendo a história da ratazana que desejava ser homem, apaixonado por livros e por divas do cinema. Entre os seus poucos amigos está Jerry Magon um escritor que desiludido com os homens desejava ser ratazana. A Firmin, os da sua espécie quase não o reconhecem por ele ser um pouco esquisito, com Jerry ele tem momentos de felicidade quase perfeita, se não fosse o facto de todos desconhecerem que por traz daquela ratazana está um ser profundamente letrado. Entretanto o bairro vai-se degradando e alguém anseia a destruição do bairro para construção de prédios novos. No fundo o mundo degrada-se completamente para esta ratazana que morrerá como nasceu entre o último livro que resta na livraria que teve que fechar a portas.
O livro fala-nos de uma cultura underground, à margem de convenções, academismos ou preconceitos artísticos.
Rosa Montero escreve assim sobre o livro “Firmin foi um acontecimento na minha vida de leitora, um desses raros encontros com uma personagem inesquecível. Original, com graça e profundamente comovedora, esta aguda fábula sobre a condição humana é um tiro no coração.”
Concluindo
Uma verdadeira ratazana de alfarrabista, não como os convencionais ratos de biblioteca que são bem comportados e não sonham. Esta ratazana tem todos pecados do mundo. frustrado nas tentativas de comunicar com os humanos, fantasioso e apaixonado. Existe um tempo antes de ler Firmin e o depois, nunca mais vou ser o mesmo.

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Felicidade e tristeza no tempo

Canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim (poetas/músicos brasileiros) aqui interpretada por Touquinho e Vinicius. E não se esqueçam que “a felicidade é como a pluma … tem a vida breve”.

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

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Que bom será podermos ter acesso a esta tecnologia, projectar os vídeos no jornal, ler a critica de um livro que vemos na livraria, tirar fotos usando os dedos das mãos para definir o enquadramento, etc…. A tecnologia procura ser mais sensitiva, orgânica e com interfaces mais perto da nossa natureza. Acho que esse é o grande desafio no futuro. Podermos fazer as coisas sem os constrangimentos que neste momento temos nos nossos computadores, telemóveis ou aparelhos de gps. O projecto é de Pattie Maes do MIT.

 

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Fim de Semana

1. Começo com uma tragédia. Os jornais falam do acidente que aconteceu em Aveiro, uma criança morreu dentro do carro. Da tragédia nem gostaria de ouvir mais falar, é horrível, principalmente para os pais que devem estar a sofrer e a culpar-se com tudo. Mas tudo não passa de um acidente. O que me custa é forma como as pessoas culpam os outros, julgam como se tivessem capacidade de adivinhar o que se passou. Por mim não quero ouvir falar mais disto. Sou solidário com este pai que perdeu um filho e que se deve estar a sentir muito mal.

2. A lista dos homens mais ricos pela revista Forbes. Ainda há homens mais ricos, ainda ficaram uma boa quantidade de bilionários. A crise devia chegar a estes com mais força. Tenho a certeza que o mundo ficaria melhor sem os multimilionários. Entre eles está o Bill Gates e mais uns tantos traficantes de droga. Atenção que Bill Gates é traficante dessa droga que se chama Windows. Amorim que anda a despedir operários também está lá.

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3. Paul Thek – Artista plástico já falecido (1988). As suas obras estão em exposição no Museu Reina Sofia. Desconhecia por completo, vou tentar ir ver a exposição. Pelo que o PUBLICO apresenta, temos uma grande personalidade que influenciou a arte dos anos 60 e 70. Segundo a Ípsilon “… é preciso oferecermo-nos de corpo inteiro, sem reticências, olhos e coração bem abertos.”

4. Murakami tem um novo livro traduzido para português, já estou com água na boca. “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Estive a ver um livro de Conrad na livraria “Nostromo”, pareceu-me importante ler este livro, por isso já vão dois para a lista dos livros a comprar.

5. Lí na Ípsilon sobre Fever Ray, fui ver ao YouTube e fez-me lembrar os anos 80, um certo dramatismo na música, algo extremamente encenado. Trouxe uma certa nostalgia, mas também algo de novo no ambiente musical deste inicio do século. Estarei atento.

Miru Kim

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Norte Americana, viveu a sua infância na Coreia do Sul. Explora locais abandonados, fotografa-os incluindo-se nua na fotografia. Pretende introduzir um elemento humano vivo nesse espaço desabitado, necessitou de estar nua para não haver referencias culturais e temporais. Na conferência do TED ela disse que pretendia ser cirurgião para conhecer as entranhas do ser humano, mas foi neste projecto de artístico que desenvolveu essa curiosidade pelas entranhas, neste caso das cidades, naquilo que aparentemente está morto mas que ele torna vivo. A determinada altura ela diz algo como “penso como a nossa existência é tão efémera, como somos tão frágeis”. As suas fotografias ilustram muito essa fragilidade do ser humano.

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Actualmente trabalha também num projecto colectivo de encenações dentro desses espaços

Site http://www.mirukim.com/