Texto do workshop de escrita teatral – Kafka

Este foi o texto final que preferi para o meu workshop de escrita teatral. Claro que houve uma grande colaboração dos meus colegas. Mas tive que fazer sobre algo que não sai da minha cabeça. Kafka é o título. Espero que gostem.
c_o_vadio

Cena 1
No exterior da sala de teatro, enquanto as pessoas compram o bilhete o Homem cola cartazes nas árvores e postes próximos. O apresentador da peça de teatro, olha com desconfiança e irritação para o Homem. O homem é indiferente ao apresentador.

Cena 2
Personagens: Homem, apresentador e espectador
Depois dos espectadores entrarem para a plateia da sala de teatro, o apresentador começa a apresentação da peça.
Apresentador – Boa noite senhores espectadores. Antes de mais devo fazer um pedido de desculpa…
Entretanto entra o Homem
Homem – Por favor algum dos senhores viu um cão por aqui ?
Apresentador – (indignado) Desculpe! Este é um lugar impróprio para estas coisas, o senhor tem que sair.
Homem – Desculpe, mas perdi este cão (mostra o cartaz), e como está aqui tanta gente pode ser que alguém o tivesse visto. (virando-se para os espectadores) por acaso não viram este cão por ai? É um boxer castanho, fugiu de casa e eu não sei onde procurar.
Apresentador – Você não tem o bom senso de ver que estamos num lugar de cultura? Se quer saber onde anda o seu cão anuncie no jornal, não aqui!
Homem – mas também não custa nada ver se alguém o viu, qual é o mal?
Apresentador – É que esta numa sala de espectáculos, onde vai começar uma peça e não está previsto publicidade, por isso saia ….
Espectador (actor) – Eu vi, é um cão castanho. Eu vi em Oliveirinha onde vivo.
Apresentador – (irritado e a gritar) Peço desculpa mas isto tem que acabar já! (sai de cena)
Homem (ignorando o apresentador) – Viu em que sitio de Oliveirinha?
Espectador (actor) – Na estrada do ciclo.
Homem – Do ciclo?
Espectador (actor) – Da escola do 2º ciclo.
Homem – Sei onde é. Vou já para lá.
(chega o apresentador com dois seguranças)
Apresentador – Para onde ele foi, já se foi embora? (faz um gesto para os seguranças saírem) Peço desculpa por este incómodo, parece que há gente que não se sabe comportar. Onde ia eu? Já sei. Estava-vos a pedir desculpa por algum equivoco que esta peça pode ter provocado. Esta peça tem o titulo “Kafka”, mas não tem nenhuma relação com este prestigiado autor. Na verdade, tenho algumas dúvidas se o autor desta peça saiba quem é Kafka (um tom um pouco snobe). Existe um protocolo que esta companhia tem com a Câmara Municipal e o sr. Vereador da Cultura considerou que este o texto que seria apresentado este ano por esta companhia. Para vos ser completamente franco, acho que o autor deste horrendo texto é filho de algum politico influente, porque na verdade não tem valor algum. No entanto esta companhia de teatro está muito dependente do poder autárquico, doutra forma era impossível sobreviver. Gostaria que compreendessem isso. Digo-vos que, embora este texto não tenha valor, os nossos profissionais conseguiram torná-lo mais interessante, da forma como interpretaram. Por isso mesmo aconselho-vos a permanecerem nesta sala até ao final. Desejo-vos um bom espectáculo. (sai de cena)

Cena 3
Personagens: Homem, mulher 1, mulher 2
Duas senhoras falam uma com outra entre um portão de uma casa. O homem chega.
Homem – (gritando alto) Cão, cãaaaaao, anda, busca.
Homem (dirigindo-se às mulheres) Boa noite, não viram um cão por aqui?
Mulher 1 – Coitadinho, perdeu o cão?
Mulher 2 – Ah! eu também sou muita amiga dos animais, um dia o meu lolocas fugiu e eu senti uma tristeza, nem imagine.
Homem – Mas não viram o meu cão, castanho…
Mulher 1 – Vai ver que vai encontrar, ali o senhor Casimiro também perdeu o seu pastor alemão e dois dias depois ele apareceu (dirigindo-se para a mulher 2) encontrou na Granja de Baixo, imagine dona Rosa o que o cão andou.
Mulher 2 – pois eu lembro-me desse cão do Casimiro, era muito mau, até mordeu na Alice costureira.
Mulher 1 – Alice?
Mulher 2 – Sim, Alice da Costa do Valado, que tem a loja de roupas a seguir à farmácia.
Mulher 1 – Ah! Alice que casou com o Marcelo das galinhas.
Homem (um pouco irritado e gritando) Mas não viram o meu cão, um boxer?
Mulher 1 – Não precisa de gritar, você é um malcriado, se calhar até batia no cão, por isso é que ele fugiu. Não o vimos, claro que não o vimos.
Homem – (continua o seu caminho gritando pelo o cão) Cão, cãaaaaao, anda, busca, vamos para casa.
Mulher 1 – (depois do Homem sair) Onde já se viu? Há gente mesmo malcriada! Uma pessoa a tentar ajudar e

Cena 4
Personagens: Homem e homem do cão
Um homem passeia pela rua o seu cão pequeno. O homem chega.
Homem – Não vi um cão por aqui? Um boxer castanho.
Homem do cão – E o cão é seu?
Homem – Sim é meu.
Homem do cão – Mas o senhor onde mora?
Homem – Moro em São Bernardo
Homem do cão – Mas isso é muito longe para um cão fugir
Homem – Mas este é um cão grande
Homem do cão – Um cão grande …
Homem – Viu? Um cão grande?
Homem do cão – Vi sim, onde vi esse cão?
Homem – Castanho, com o focinho achatado, um boxer?
Homem do cão – foi ontem à noite ele andava desorientado pela rua, de um lado para outro, depois dirigiu-se para o lado do Largo da Oliveirinha.
Homem – Obrigado, muito obrigado, vou já para lá.

Cena 5
Personagens: Homem, GNR1 e GNR2
No largo da igreja estão dois Agentes da GNR.
Homem – Boa Noite, Não viram por ai o meu cão?
GNR1 – Como é o seu cão?
Homem – Um Boxer castanho tigrado
GNR2 – Esse cão é perigoso
Homem – Não é! é manso, não faz mal a ninguém.
GNR2 – Essa raça é muito perigosa e o senhor não devia andar com esse cão por ai.
Homem – Mas eu não ando com ele por ai, eu estou à procura dele.
GNR2 – É a mesma coisa. Ele anda solto e o senhor tem que andar com o cão com uma coleira. Serei obrigado a passar-lhe uma coima.
GNR1 – Ó Antunes chega ali que eu quero falar contigo.
Os agentes da GNR afastam-se mais perto do publico
GNR1 – Ó Antunes, não vês que não lhe podes passar a coima, o homem não tem o cão com ele.
GNR2 – Hummm! Pois é.
Os agentes da GNR aproximam-se do homem.
GNR2 – Por esta vez passa, mas não o quero ver mais a passear o cão sem coleira.
Homem – Mas eu ando à procura do meu cão! Não estou a passeá-lo (mostra o cartaz).
GNR1 – Eu vi esse cão ontem, estava em casa e o cão passou na minha rua.
Homem – Onde mora o senhor agente?
GNR1 – Na Granja de Baixo, mesmo ao lado da Fonte.
Homem – E o cão ia em que direcção?
GNR1 – Ia em direcção a Mamodeiro.
Homem – Obrigado e boa noite.
GNR1 – Espere lá! Onde vai a esta hora?
Homem – Para Mamodeiro.
GNR1 – Ainda é longe, vais demorar uma hora a pé, ainda por cima parece que vai chuviscar. Nós levamo-lo lá.
Homem – Obrigado.
O Homem entra no Jeep da GNR e e saem de cena os três de jeep.

Cena 6
Personagens: Homem, rapaz 1 e rapaz 2
Muito escuro única pessoa em cena é o Homem
Homem – (Gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! Anda, anda cão! (falando baixo) É tarde e está um frio de morrer. O que eu ando a fazer por este cão, onde se meteu? Porque fugiu? Onde estou? Mamodeiro, nem sei onde isto fica. (gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! (falando baixo) o que é que eu ando a fazer por aqui? Estou maluco? À procura de um cão às três da madrugada, nem vejo nada, não há ninguém na rua. Raio do cão, o que me faz passar. (gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! Anda (falando baixo) Isto é de loucos, que parvo, eu à procura de um cão numa terra que se chama Mamodeiro onde não existe ninguém, ainda por cima a estas horas (gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! Anda (falando baixo) que noite, porque ganhei afecto por este cão? Eu nem o queria em casa, agora estou tão dependente da sua presença, da amizade que ele tinha por mim, seria mesmo amizade? gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! (falando baixo) Sinto-me tão sozinho sem este cão, como se eu não existisse, como se o cão levasse algo de mim com ele, é isto que me faz procurá-lo (gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! (falando baixo) Ainda não lhe tinha dado nome, chamava-o cão, porque queria dar-lhe um nome digno com a sua personalidade, no entanto foi-me difícil, todos os nomes que vinham, não eram dignos para este cão e foi ficando o nome cão e o cão foi respondendo ao nome cão, agora é cão e este é o nome que mais caracteriza a sua personalidade, cão. (Gritando) Cão! Cãaaaao! Cãaaaaaaaao! Anda, anda cão!
Passa um carro e o homem manda parar. No carro estão 4 rapazes com a música em altos berros. Os rapazes tem aspecto de virem de uma discoteca, vêm divertidos e um pouco alcoolizados. O carro é um tunning e a música é muito ritmada.
Homem – por acaso não passaram pelo o meu cão, um boxer castanho?
Rapaz 1 – Não vimos nada.
Rapaz 2 – Eu vi hoje de manhã atravessar a estrada para a Póvoa do Valado.
Homem – Onde fica isso?
Rapaz 1 – Vai em frente, sempre em frente, cerca de 2 km, quando chegar a um cruzamento, atravessa a estrada para o outro lado, a partir dai é Póvoa do Valado.
Homem – Obrigado. E boa noite.
Rapaz 2 – Boa sorte. (todos se riem da situação).
Ouve-se o carro avançar e a música a desaparecer

Cena 7
Personagens: Homem, mulher 1, mulher 2 e homem 2
De madrugada, três pessoas cavam terra com enxada, duas mulheres e um homem. Estão compenetrados no seu trabalho, estão compenetrados na sua vida. O Homem aparece.
Homem – (gritando alto) Cão, cãaaaaao, cãaaaaaaao, anda, busca.
Homem (dirigindo-se para as pessoas) – não virão o meu cão por aqui?
Mulher 1 – O seu cão? Já vimos passar muitos cães hoje por aqui? Como é o seu cão?
Homem – é um cão castanho.
Mulher 2 – Há muitos cães castanhos, hoje já vi três?
Homem – mas tem um pouco de preto, e uma cauda cortada.
Homem 2 – Um cão rabudo. Para ter uma cauda cortada é um cão rabudo, cão de caçador, o senhor é caçador?
Homem – Não! Não sou nada.
Homem 2 – Se não é nada porque precisa de um cão caçador?
Homem – Não! Eu sou professor! Mas o cão não é caçador. É um cão de guarda, um boxer.
Mulher 1 – Cão boxer! esses são muito perigosos. Tenho medo desses cães.
Homem – Mas viu algum boxer?
Mulher 1 – Se eu visse fugia a sete pés, ou então dava-lhe com a enxada no cachaço.
Homem – (um pouco irritado) Mas então não viu? (já andando para continuar o seu caminho)
Homem 2 – Espere lá. Acho que vi. Onde é que eu vi um cão assim?
Homem – Castanho tigrado?
Homem 2 – como disse? Castanho quê?
Homem – Tigrado, castanho e preto, mas com o pelo como se fosse um tigre.
Homem 2 – Ha!
Homem – Onde o viu?
Homem 2 – Estou-me a tentar lembrar…. Foi perto da igreja. (dirigindo-se para as outras mulheres) estava até com o Ti-manel e comentamos que o cão devia andar fugido, tinha um ar de cão bem tratado, pelo brilhante, forte…
Homem – foi quando?
Homem 2 – Isto deve ter sido ontem.
Homem – E o cão ia para algum lado? Ou estava por lá?
Homem 2 – Ia em direcção à estrada de Verba.
Homem – Obrigado
(o homem sai de cena depressa e as pessoas continuaram a cavar)
Homem 2 – Às tantas alguém já lhe pôs a mão.
Mulher 1 – Olha que não! Esses cães não se deixam levar.

Cena 8
Personagens: Homem e homem idoso
Um homem idoso sentado num banco.
Homem – (gritando alto) Cão, cãaaaaao, cãaaaaaaao, anda, busca, toma!
Homem – (dirigindo-se ao idoso) Não viu por ai um cão? O meu cão?
Homem idoso – O que disse?
Homem – (falando alto) Não viu por ai um cão?
Homem idoso – Um cão não vi. Vi dois cães!
Homem – (falando alto) Mas eram grandes ou pequenos?
Homem idoso – Eram pequenos. Mas ontem vi um grande que até me assustei.
Homem – (falando alto) e como era esse cão? Tinha cauda?
Homem idoso – Não tinha cauda, não.
Homem – (falando alto) e era castanho?
Homem idoso – Isso mesmo, castanho.
Homem – (falando alto) e para onde foi o cão?
Homem idoso – Foi pela estrada de Verba.
Homem – (falando alto) obrigado. (sai a correr)
Homem idoso – de nada…

Cena 9
Personagens: Homem, homem 1, homem 2, mulher dona do bar e mulher cliente
Uma senhora numa loja supermercado e bar, serve e conversa com três clientes, dois homens e uma mulher.
Homem 1 – Aquilo lá, deu mesmo para o torto.
Mulher cliente – Parece que ela saiu de casa com os filhos e com tudo.
Homem 2 – Levou até a roupa que o João lhe comprou.
Mulher dona do bar – Sim porque ela não fazia nada o dia todo, nem arrumava a casa.
Homem 1 – Coitado do João.
Mulher dona do bar – O João foi buscar aquela não se sabe onde e agora ficou sozinho. Eu bem lhe disse, arranja uma mulher daqui da Povoa, mas ele nada.
Mulher cliente – Mas parece que o João lhe dava bem. Então quando vinha daqui já entornado, eu é que ouvia os gritos da mulher e dos filhos a berrarem e a chorarem.
(todos se calam pensativamente. Entra o homem no bar supermercado)
Homem – Bom dia, não viram por aqui um cão?
Homem 1 – Cheguei agora mesmo, não vi nenhum cão aqui dentro.
Homem – Não digo agora, não têm visto por aqui um cão grande e castanho? Na rua?
Homem 2 – Ontem no meu aido, passou um cão com uma velocidade, quase que não o vi.
Homem – E como era o cão?
Homem 2 – Não sei, quase que não o vi.
Homem – Não seria castanho?
Homem 2 – Sim era castanho, isso vi.
Homem – E o tamanho, era grande ou pequeno?
Homem 2 – Era grande.
Homem – Onde é o seu aido? Para onde ia? A que horas foi?
Homem 2 – O meu aido é mesmo ali à direita, depois do corte para Verba.
Homem – E o cão dirigia-se para onde?
Homem 2 – Ia para o pinhal a seguir ao aido. Devia ser ai umas 10 horas da manhã.
Homem – Obrigado.
(homem saiu correndo)
Mulher dona do bar – Coitado, perdeu o cão.
Homem 2 – Uma vez o meu andou perdido quase uma semana, procurei por todo o lado. Sabem onde estava? Mesmo em frente à minha casa, nos terrenos da Rosa. Estava lá com uma cadela perdida.

Cena 10
Personagens: Homem e Homem de caçadeira na mão
Homem entra num terreno a chamar pelo cão.
Homem – (gritando alto) Cão, cãaaaaao, cãaaaaaaao, anda, busca, toma!
Aparece um outro homem de caçadeira na mão apontar para o homem.
Homem de caçadeira na mão – (com ar assustador) O que fazes aqui no meu terreno?
Homem – (assustado) Desculpe! Desculpe! Não sabia que era seu, apenas estou à procura do meu cão!
Homem de caçadeira na mão – (com ar assustador) Mas aqui não passam cães e os que entram já não saem mais!
Homem – (muito assustado) Desculpe, eu saio já!
Homem de caçadeira na mão – (com ar assustador) Quem entra aqui, não sai mais! ouviu?
Homem – (muito assustado começa a chorar) Por favor não me mate eu apenas ando à procura do meu cão.
Homem de caçadeira na mão – essa choradeira não me convence, até pelo o contrário, detesto medrosos chorões, ainda me dão mais ganas!
Homem – (ainda a chorar mas tentando acalmar-se) – Por favor, tenho mulher e filhos, não me mate!
Homem de caçadeira na mão – O que é que faz por mim se eu não o matar?
Homem – Tudo o que quiser.
Homem de caçadeira na mão – Então pode cavar ali um buraco para eu enterrar os seres que matei por aqui.
Homem – Eu faço, eu faço, eu faço isso!
Homem de caçadeira na mão – O buraco tem que ter o seu tamanho, tome a enxada.
Homem – O meu tamanho (um pouco assustado)?
Homem de caçadeira na mão – Sim o seu tamanho, mais ao menos o seu tamanho, talvez um pouco maior. E comece já, porque Senão leva um tiro.
O homem começa a cavar um buraco, atabalhoadamente, como alguém que nunca pegou numa enxada.
Pouco depois
Homem de caçadeira na mão – Então isso já está? Já passaram 4 horas, eu já tinha feito 4 buracos desses.
Homem – (cansado, quase sem respirar) Já está
Homem de caçadeira na mão – Agora venha comigo buscar o bezerro que morreu durante o parto.
Homem – Bezerro? Pensava que eram cães?
Homem de caçadeira na mão – Eu não mato cães, todos os cães que passam aqui, ficam por aqui porque eu dou-lhes comida, acha que eu sou o quê, algum troglodita?
Homem – Desculpe, pensei só, como me disse aquilo… e tinha uma caçadeira na mão.
Homem de caçadeira na mão – Vocês na cidade pensam de mais, pensam coisas que nunca acontecem e depois andam sempre acagaçados.
Depois de enterrarem o bezerro.
Homem de caçadeira na mão – Desapareça, não volte mais por aqui, vá procurar o seu lulu.
Homem corre para longe.
Homem de caçadeira na mão – Há! Há! Há! Estes gajos de agora, são uns medricas de primeira, dormem com o medo na cama. Há! Há! Há! Há! Podemos fazer deles gato e sapato.

Cena 11
Personagens: Homem e Pastor
Um pastor idoso pasta as suas 2 ovelhas
Homem – Cão, cãaaaaaaaao, anda para casa.
Homem – (dirigindo-se ao pastor) Não viu um cão por aqui?
Pastor – um cão? Não vi!
Homem – é que ele fugiu-me de casa.
Pastor – Você é de onde?
Homem – De São Bernardo.
Pastor – De São Bernardo? Isso é muito longe para um cão.
Homem – Mas ele foi visto nesta direcção.
Pastor – E como era o cão?
Homem – Grande, castanho, tigrado, um boxer.
Pastor – Um quê?
Homem – Um cão de raça boxer.
Pastor – Não sei. Mas se você quiser apanhar o seu cão tem que fazer o que ele faz, seguir o seu rasto, cheira-lo.
Homem – Mas como?
Pastor – Têm que andar a cheirar, até encontrar o cheiro dele e seguir o rasto.
Homem – Mas isso é difícil.
Pastor – Vai ver que não é, vai ver que é mais fácil.
O homem começa a cheirar as árvores e continua o seu caminho a cheirar tudo o que encontra.

Cena 12
Personagens: Homem, homem 1 e homem 2
Dois homens sentados num banco no largo de uma igreja, estão calados a ver as pessoas passarem.
Homem – Cão, Cãaaaaaaao, Cãaaaaaaaaaaaao, ãaaaaaaaao.
Homem – (Dirigindo-se aos homens) Não viram passar por aqui um cão?
Homem 1 – Um cão?
Homem – Um cão castanho tigrado, um boxer.
Homem 2 – não o vi, mas cheguei agora.
Homem 1 – Como se chama o cão?
Homem – Cão
Homem 1 – Eu sei que é um cão, mas como se chama?
Homem – Chama-se mesmo cão, ele está há pouco tempo conosco, ainda não lhe tínhamos dado nome, mas ele vem se o chamarmos cão.
Homem 1 – Mas por aqui não o vi.
Homem – Tem a certeza que não? É que ele passou por aqui.
Homem 1 – Como sabe que passou por aqui?
Homem – Cheirei o seu rasto, tenho a certeza que passou por aqui.
Homem 2 – Cheirou o rasto? Mas você é cão para cheirar o rasto o quê?
Homem – Não, foi um pastor que me ensinou.
Homem 2 – Saia já daqui! Essas coisas são do diabo, o homem não é cão, saia já daqui! Um homem não anda a cheirar como um cão. Desapareça! Xo!
O homem sai de cena, assustado que nem um cão.

Cena 13
Personagens: Homem e candidato à Junta de Freguesia
O candidato à Junta de Freguesia distribui desdobráveis pela caixa de correio.
Homem – Cão, cãooooooo, ãaaaaao, ão, ão.
Candidato – O que se passa homem, você está a ladrar?
Homem – Não, estou a chamar o meu cão que se chama cão, mas que vem quando dizemos só o ão.
Candidato – E como é o seu cão?
Homem – é um boxer, castanho tigrado.
Candidato – Aqui na Freguesia é só boa gente, tenho a certeza que se encontrarem o seu cão, vão lhe dar. Deixe uns cartazes por ai com o seu contacto. Vá até casa descansar, você está com um ar cansado.
Homem – mas ele deve estar muito perto daqui, pois ele passou aqui à pouco tempo.
Candidato – Mas você com essa coisa do cão está a distrair o meus eleitores e depois eles não tomam atenção à minha campanha, às minhas promessas eleitorais, além de mais não é bom para nós saberem que anda por ai um cão à solta, a matar as galinhas e ovelhas.
Homem – Mas eu tenho que o encontrar, é o meu cão.
Candidato – Você não me queira estragar as minhas eleições, vá-se embora (pega num pau e começa a bater no homem) Xo! Xo! Sai daqui!
Homem – Ai! Ui! (foge como um cão)

Cena 14
Personagens: Homem e Rapaz 1 (o mesmo do carro na cena 6)
Homem – Ãaaaaaaao, ãaaaaaao, ão.
Homem – Não viu por aqui o meu cão?
Rapaz 1 – Outra vez?
Homem – Tem que compreender que é natural que uma pessoa encontre outra mais que uma vez quando procura o seu cão…
Rapaz 1 – Desaparece mas é daqui, já estou farto da cena do cão, Xo!
Homem – Mas não viu o meu cão?
Rapaz 1 – Já disse para desapareceres, pareces um cão, só os cães é que são assim chatos, não largam uma pessoa.
Homem – Mas eu estou só à procura do meu cão!
Rapaz 1 – Sai daqui cão! xoooo! (pega em pedras e começa atirar)
Homem sai a correr e ainda leva com pedras na perna e fica a coxear.

Cena 15
Personagens: Homem e Sr. António.
Homem – Ão, ão, ão, ão, ão, ão, ão. (como se fosse um ladrar de cão)
Sr. António – O que se passa amigo?
Homem – Procuro o meu cão, não o viu por aqui?
Sr. António – O seu cão? Como é o seu cão?
Homem – É um cão castanho tigrado, um boxer.
Sr. António – Vi sim, anda por aqui todas as noites, dorme ali naquela casota depois de comer os restos que deixo aqui.
Homem – Que bom, restos.
Sr. António – Você está com fome?
Homem – Sim, muita!
Sr. António – Tenho ali uns restos que ia dar ao cão, mas coma você. Já está dentro da tigela do cão, não se importa? Pois não?
Homem – Não, que a fome é muita.
(Sr. António serve a comida no chão e o homem come como um cão)
Sr. António – Para você apanhar o seu cão, talvez seja melhor dormir por aqui esta noite.
Homem – (Ainda a comer, responde com a boca cheia) Sim, é uma boa ideia.
Sr. António – Mas tem que ser cá fora, para se aperceber que ele chega.
Homem – (mais interessado na comida e com a boca cheia) Pois, tem que ser cá fora.
Sr. António – Dorme ali na casota que tenho de um cão que me morreu no mês passado, pode ser?
Homem – (com a boca cheia) Sim, sim.
Sr. António – Vou até colocar a corrente amarrada ao seu pescoço para o cão pensar que você também é cão e aproximar-se.
Homem – Sim, isso mesmo. Ão, ão, ão!

Cena 16
Personagens: Homem, Sr. António e Candidato à Junta de Freguesia
Em casa do Sr. António vê-se o homem dentro da casota a dormir como um cão.
Sr. António – (gritando alto e transportando uma tigela na mão) Vamos comer!
O homem – ão, ão, ão (sai da casota, abana o rabo e começa a comer)
O Sr. António faz uma festa na cabeça do homem como se fosse um cão
Entretanto chega o candidato à Junta de Freguesia e o Homem começa a ladrar
Sr. António – Calma Kafka, é amigo! (o homem cala-se).
Candidato – Olá António, tens outro cão?
Sr. António – Sim apareceu aqui, devia andar abandonado.
Candidato – E como se chama?
Sr. António – Dei-lhe o nome de Kafka, gosto deste nome, não sei porquê.
Candidato – É um nome um pouco estranho, mas um bom nome. Kafka. Curto e tem uma rima.
Sr. António – Eu gosto.
Candidato – António, não te esqueças no domingo votar em mim, vou andando, toma um desdobrável com as pessoas da lista.
Sr. António – Obrigado
(saem os dois Sr. António para sua casa e o candidato pela rua fora na sua tarefa de distribuir os desdobráveis)
Homem – Parece que agora sou cão. Será que eu andava à minha procura? Será que sempre fui cão e pensava que era pessoa? Mas que confusão esta. Não me lembro muito bem quem era, nem quem eram os meus pais. Devo ter sido sempre cão, convencido que era pessoa, deve ter sido isso que aconteceu, deve ter sido isso, um cão convencido que era gente. O contrario será pior, gente convencida que é cão. Sim isso é muito pior. Mas gosto daqui estar, gosto de ladrar aos que passam por aqui, tenho uma inveja enorme deles porque estão soltos e eu estou preso. Mas o António é um bom dono, aqueles restos que me dá são maravilhosos, também me dá uma festa de vez em quanto. Esta casota até é confortável. Se ele me soltasse agora eu ficava por aqui, noutros sítios podem-me tratar mal. Eu gosto daqui estar. Vem ai alguém, vou ladrar, detesto ver gente e cães em liberdade, deviam estar todos acorrentados como eu, por isso é que ladro. Vou ladrar. Ão, ão, ão, ão….

Cena 17
Os espectadores saem de cena e na rua está o homem (personagem principal) a passear o cão (boxer castanho tigrado) com uma trela.
Homem – Anda cão, vamos para casa! Anda!

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