António

Este foi o primeiro exercício do Workshop de escrita teatral. Um monólogo.
mala
(um homem entra a correr em palco, angustiado, grita alto)
– António, António….
(dirige-se aos espectadores)
– Alguém viu o António aqui a passar?
(continua a gritar, procura por todo o lado)
– António, António, António…
(volta a dirigir-se para o publico)
– Porra, não viram o António? aquele cabrão de merda, sacana…
– Vou sempre nas cantigas dele
– Como posso ter caído nesta?
– O gajo aldraba-me sempre
– Tem a certeza que não o viram passar? Por aqui?
– Já estou à procura dele há umas 5 horas, já fui a casa dele, ninguém sabe dele, já fui ao bar do João, também nada, já fui a casa da Isabel, também não o viu. Porra, onde se terá metido aquele gajo?
– Poê-me em cada alhada, aquele gajo.
– Mas a culpa é minha de cair nas conversas dele. Primeiro pede-me desculpa, diz que está arrependido, diz que se descontrolou. Diz-me que não volta acontecer. Vem com a história da infância, do pai alcoólico, que lhe dava nas trombas. E eu caiu como um patinho, feito parvo, aceito as desculpas. Mas digo-lhe que não entro em mais nenhuma treta daquelas.
– Uns meses depois vem o gajo com uma cena igual, quer dizer, não é bem igual, quer dizer, é igual contada de outra forma. Diz-me que a vida dele é fodida, que precisa de guita para as despesas, mas que tem que ir não sei aonde, e que precisa que eu lhe faça o serviço. E eu caiu na cena, vou na conversa dele.
– Depois diz-me que a cena é fácil, que é só entregar um saco no balcão, ta, ta, tata, ta, ta….
– Que cena! e eu fui-me meter nela! que cena, pá!
– Depois desaparece
(volta a gritar alto)
– António! Antóoooonio! eu mato aquele gajo
(ouve-se um barulho, a personagem olha a origem do barulho)
– Esperem… quem vem ai? Será o gajo?
– humm, não é
– É verdade que desta vez eu excedi-me, eu tirei lá um pouco da cena do saco, mas estava-me apetecer. Um gajo não é de ferro, pá.
– Nunca julguei que descobrissem, aqueles gajos também tem a cena bem contada, porra.
– O António lixou-se um pouco com a cena, mas também não era preciso fazer isto. Fugir. Tou com uma raiva. É verdade que os gajos lhe deram um enxerto de porrada, mas também o gajo é um malandro do caraças, merecia… Quer dizer, (silêncio) quem merecia era eu.
– Será que o António está lixado comigo?
(silêncio, o personagem fica pensativo)
– E pá! Se calhar o gajo anda à minha procura?
– Será que me que me vai bater, vingar-se da cena!
– O gajo deve estar lixado comigo, afinal fui eu que o pus nesta cena.
– Talvez seja melhor fugir.
(dirige-se ao publico)
– se ele passar por aqui à minha procura, digam por favor, que não me viram, se não o gajo mata-me. Está bem?
( a personagem foge, olhando para traz preocupado)

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One thought on “António

  1. Que fique claro. O António não passou por aqui, isto é por minha casa. Nem sinto que o vá fazer. Deve andar todo “speedado”… Tirando este pormenor, tenho que admitir que estás com veia artística e leio as tuas palavras e sinto-me na plateia, na 3ª fila (meu lugar favorito no teatro). Como cantaria Zé Mário Branco – Que força é essa amigo…?

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