O Barulho

Outro texto escrito como exercício do workshop de escrita teatral. A ideia aqui era não utilizar didascalles, apenas diálogo.
Faca
Ela – acorda amor, acorda estou ouvir um barulho lá em baixo.
Ele – Não é nada, dorme, deixa-me dormir
Ela – João, acorda, está alguém lá em baixo, oiço um barulho
Ele – deve ser o gato, dorme ah…
Ela – João, estou cheia de medo, vai lá abaixo, leva a faca que tenho aqui.
Ele – Faca? Que faca? Tás doida? Tens uma faca debaixo da cama?
Ela – É uma faca da cozinha, nunca se sabe quando vai ser precisa.
Ele – Ainda podes te magoar com essa faca, deixa-me mas é dormir.
Ela – Mas vai lá abaixo, ver o que se passa.
Ele – não vou, estou cheio de sono, tenho que dormir que amanhã é dia de trabalho
Ela – João, vai lá! estou cheia de medo, não consigo dormir, está alguém lá em baixo a mexer nas nossas coisas.
Ele – Maria, amanhã trabalho, estou esgotado, não está ninguém aqui em casa, é o gato.
Ela – O gato não dá passos como aqueles que eu estou ouvir.
Ele – Se tu fizesses alguma coisa durante o dia, conseguias dormir e não ouvias barulhos.
Ela – Eu não trabalho porque nesta ilha onde me arrumaste não há nada para fazer.
Ele – Eu não te arrumei em ilha nenhuma. Vieste para aqui porque concordaste comigo que era melhor para nós.
Ela – Claro, com as tuas tretas de amor e uma cabana, eu fui na conversa, na tua conversa.
Ele – Também não temos dinheiro para vivermos no continente.
Ela – Não temos dinheiro porque não pediste aos teus pais.
Ele – E tu pediste aos teus?
Ela – Sabes bem que os meus pais não têm dinheiro.
Ele – Não têm porque não se esforçaram, como o meu pai se esforçou, ele chegou a director da companhia à custa de muito trabalho, enquanto o teu pai andava na tasca a beber com os amigos.
Ela – O teu pai chegou a director porque fez montes de vigarices, tu próprio me disseste.
Ele – Fez vigarices e trabalhou muito, enquanto o teu não fez nada.
Ela – O meu pai trabalhou toda a vida até a empresa abrir falência. Depois teve uma depressão. Tu, o filhinho do papá não sabes o que é ficar sem emprego aos 50 anos, não é? Sempre tiveste tudo.
Ele – E quem é que sustenta esta casa? Sou eu o filhinho do papá.
Ela – Mas podíamos viver muito melhor, num sitio decente se tu tivesses pedido dinheiro ao teu pai.
Ele – Eu quero ganhar as coisas à minha custa, não à custa do meu pai, para depois não me virem com bocas que eu sou menino do papá.
Ela – Vais chegar muito longe a servir naquela espelunca.
Ele – Espelunca? É o melhor bar do mundo, sabes muito bem, vem muita gente de longe para beber o gim no Peter.
Ela – Não deixa de ser uma tasca igual às outras, cheia de americanos presunçosos. Alem de mais pagam-te mal. Nem dá para ir ao continente passar umas férias. Podias pedir, ao menos isso aos teus pais, um dinheiro para ir mos visita-los.
Ele – Nem pensar, irei conquistar as coisas à minha custa. Sem pedir nada aos meus pais, estou farto que eles me digam coisas por eu não ter estudado.
Ela – Mas quando foi para me engataste pedias o jeep ao papá e tinha sempre a mesada para me pagares tudo nas discotecas, para dares a ideia que eras rico, não era? Agora és orgulhoso, já tens o que querias, não é.
Ele – Tenho o que queria? Uma mulher louca dentro de casa, que não faz nada durante o dia todo, que houve barulhos à noite. Achas que era esse o meu ideal de vida, achas?
Ela – Eu não estou louca, estou é farta desta ilha onde me meteste, onde nada acontece.
Ele – Não acontece se tu não fores à procura das coisas. Eu fui à procura de emprego. O teu mal já vem de família, o teu pai era assim e tu também vais pelo mesmo caminho. É ….! O que vais fazer com essa faca?
Ela – Vou-te matar cabrão de merda, porque tu não acreditas que há um barulho enorme lá em baixo. Um barulho enorme ….
Ele – haaaa

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