Natal


1. Morei dos 2 aos 24 anos (com algumas interrupções) no bairro de Santo António dos Cavalheiros perto de Loures arredores de Lisboa. Um bairro periférico dormitório construído nos anos 60. Tal como a minha família, havia milhares de jovens casais com filhos pequenos que foram, nos anos 60/70, morar para este bairro. Por essa razão o bairro estava povoado de crianças. Como podíamos brincar na rua (grande parte das ruas eram fechadas) o barulho das crianças a brincar no final do dia impossibilitava alguém de ficar em casa. A nossa sala era a rua. Uma das vezes em que a minha mãe atrasou um pouco o jantar eu deixei-me ficar na rua um pouco mais. Como só estavam os grandes (eu tinha 9 anos e os “grandes” tinham 14 e 15 anos) eu sentei-me ao lado deles. Estavam por lá duas irmãs da Rua Fernando Oliveira (a minha rua era a Carlos Relvas). Essas duas irmãs eram as mais bonitas do bairro. Um dos “grandes” ofereceu-me uma passa do seu cigarro, eu nunca tinha fumado, mas como estava entre “os grandes”, lá dei uma passa. De repente os “grandes” começaram a dizer que eu tinha a cabeça arder por causa do cigarro. Fiquei assustado e comecei a chorar. As irmãs agarraram-me cada uma numa mão fugiram comigo dali. Ainda hoje tenho essa imagem na minha cabeça – dois anjos que me salvaram do fundo ardente dos infernos. Tenho mesmo a sensação que nesse dia voei com elas.

2. As minhas interrupções na morada de Santo António dos Cavalheiros fizeram-se na Ilha do Faial. Entre os locais que morávamos no Faial, um deles era na casa do Pilar, durante as férias de Verão. A casa ficava num dos montes a redor da cidade da Horta. Em frente tínhamos a vista para a ilha do Pico. A casa do Pilar não era uma simples casa, era um palacete que hoje está em ruínas (ver site) que ainda pertence maioritariamente à minha tia avó Teresinha que não a quer vender, tentando perpetuar a sua vivência nesta casa quando era jovem. A casa foi cenário de grandes festas, cerimónias oficiais e romances de amor – alguns proibidos. Por isso, nesta casa existe uma alma. A minha vivência nesta casa não foi a mesma da minha avó tios e minha mãe. As vezes que fui passar férias aqui, a casa estava quase no limite do inabitável. Por isso, vir para aqui era para mim uma aventura, uma exploração fantástica. Imaginava todo o tipo de cenários que uma criança de 9, 10 e 11 anos podia encontrar. Uma caça ao tesouro escondido, uma espécie de aventura dos cinco, um ataque de piratas. Havia muito espaço em volta e amigos que viviam perto da casa (muitos deles os pais e avós trabalharam para a minha família na casa). Mas o mais fabuloso era uma das entradas para a casa – um portão de madeira e um caminho onde passava bem um carro rodeado completamente cercando o céu de árvores. Uma espécie de túnel.  No final havia uma escadaria para baixo que dava para a zona desta fotografia. Outra escada dava para a estufa. Na estufa estavam muitos brinquedos que eram da minha mãe um deles encantador – uma casa de bonecas.

O Faial tem uma magia muito especial para mim, quando chego a essa ilha, ainda de avião fico numa felicidade enorme.São os cheiros, as cores que me enchem e fazem-me recordar todos os bons momentos que vivi lá. Quando vou a casa dos meus pais, visito por vezes a minha ex-rua e sinto a mesma felicidade. Se me perguntarem qual a minha terra natal eu não vos sei responder. Estou dividido entre estes dois lugares. São os meus lugares.

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9 thoughts on “Natal

  1. Da paz pouco sabemos o que ela é e, por onde se esquiva.
    St Antºdos Cavaleiros, as Ilhas todas e os mistérios são Catedrais de inquietação quando a delicada emoção cavalga por todos os cenários feitos corpo de desasossego.
    O site daquela casa é maravilhoso e, se eu fosse a tua Tia-Avó também jamais quereria dali sair mm com a casa sem tecto. Só que seria preciso ser sempre Natal e ter o teu cão.

  2. Olá Tiago

    Que nostalgia me deu quando vi a minha rua. A rua da minha infância. A rua de tão bons momentos e que me deixou tantas memórias.
    A rua das brincadeiras, das amizades e também das zangas e das reconciliações. De horas passadas nos muros a conversar disto e daquilo com poucos e muitos, de tudo e de nada. Foi uma vivência plena. Que saudades!
    Pena os nossos filhos não saibam o que é brincar na rua!
    Um óptimo 2010 para ti e para a tua família.
    Beijos
    Belinha

  3. Gostei do seu post.
    Fez-me lembrar a minha infância, com as brincadeiras de Verão na rua à noite, e os lugares mágicos das férias (no meu caso, a casa da minha avó, na Beira Baixa).

    Obrigada por este passeio no tempo!

  4. Só hoje tive conhecimento deste texto e daí o atraso do meu comentário.
    Não posso, todavia, deixar de o fazer, já que considero este texto um verdadeiro poema em prosa.
    Acresce que a minha infância (já muito distante…)também esteve ligada ao Pilar, através da grande amizade que me unia à mãe do Tiago.Foram óptimos momentos de uma infância muito feliz vivida no Faial, onde nasci e residi até aos 20 anos.
    Como é natural, o meu olhar sobre o Pilar é repleto de recordações muito diferentes mas, talvez por isso mesmo, foi encantador conhecer o olhar do Tiago carregado da mesma ternura apesar da fantasia ser outra.
    Muito obrigada Tiago por este delicioso momento.
    Um beijinho da
    Conceição Lourenço

  5. A “Casa do Pilar” é um sítio cheio de recordações, moro ao pé, é muito triste ver a degradação do espaço, de ano para ano… Pelo que já ouvi dizer viviam pessoas que ajudavam o povo, sendo uma casa importante para as pessoas que viviam na zona do Pilar, um marco importante na história dos mais antigos, que na minha opinião é com grande tristeza a degradação, e o de não sabermos um pouco da história/vivências da época… Penso que será a primeira vez que vejo alguém “falar” desta casa… :)

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