Lobo Antunes, Valter Hugo Mãe e os Painéis de São Vicente


fotografia de Nelson d’Aires em http://bibliotecariodebabel.com/tag/valter-hugo-mae/

Uma ideia um pouco louca, pensei eu, na segunda feira quando a minha colega Isabel me disse “- vamos a Lisboa ao lançamento do livro de Valter Hugo Mãe? Eu vou.” Claro que eu disse que tinha uma reunião e que não podia. Invertendo qualquer lógica, fui. Quem se lembraria de andar 500 km numa noite de mau tempo para ir apenas um lançamento de um livro, mesmo com António Lobo Antunes apresentar? Claro que não foi só um lançamento, foi muito mais…
No Museu de Arte Antiga, nas janelas verdes. Um barbeiro no átrio do museu cortava cabelos e fazia barbas, estranho. Valter Hugo Mãe recebia os seus leitores, havia de tudo: gente bem vestida e gente mal vestida; gente bem cheirosa, gente mal cheirosa; gente com gravata e sem gravata; gente com piercings e gente sem piercings; gente famosa e gente menos famosa. Sinto-me bem naquele átrio, todos queríamos ouvir Valter Hugo Mãe e muitos queriam ouvir António Lobo Antunes.
Valter Hugo Mãe cumprimentou-nos com toda a franqueza, uma franqueza que já não existe, alguém que na sua simplicidade cumprimenta outra pessoa. Sabia pelo Facebook da Isabel que vínhamos de Aveiro.
Quando Lobo Antunes chega, quase todos os olhos deixam de incidir no Valter Hugo Mãe para observar a cena mais ternurenta da noite, Lobo Antunes a dar dois beijos a José Eduardo Agualusa, como um pai a cumprimentar um filho.
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António Lobo Antunes começa por dizer que está cheio de inveja de tudo e até como o editor fala de Valter Hugo Mãe. Lobo Antunes diz que quando editou o seu primeiro livro tinha um editor (dois sócios) que eram um pouco vigaristas, queriam que ele mudasse o nome, queriam que mudasse o título do livro, um dos sócios queria mudar a primeira parte do livro o outro queria mudar a segunda parte do livro. Foi um êxito a apresentação  com 4 pessoas, então ele aprontou-se a escrever outro livro, como um dos sócios era uma pessoa muito magra e quase que não tinha cu (pareço eu), quando lhe perguntaram o título do livro ele disse “O Cu de Judas”.

Diz que não sabe bem o que é a literatura, diz que quando escreve um livro aparece-lhe um túnel muito escuro e que ele vai percorrendo esse túnel longo, pela escuridão, atrás do livro. No final quer-se despachar, desembaraçar daquele livro. Diz que existe 3 ou 4 escritores Portugueses Contemporâneos que são os únicos que vale a pena ler, refere Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. Quem serão os outros? José Luís Peixoto?

Fala da critica de literatura, diz que existe entre dez criticas literárias uma que é má, as outras 9 são péssimas. Fala da forma como as pessoas se enganam quando falam dos processos criativos. Diz que Rembrandt na sua velhice começou a pintar mais escuro que existe uma série de teorias sobre a técnica, o seu simbolismo, etc. O que está provado é que Rembrandt sofria de cataratas. El Greco sofria de astigmatismo e que Picasso quando pintou uma série de retratos em verde foi só porque lhe acabou a tinta vermelha.

Diz que as qualidades técnicas são apenas defeitos disfarçados. O livro é um delírio estruturado. Tem dificuldade em classificar os livros, diz que um livro bom é um livro. Existem muitos livros maus.

Diz que para escrever é preciso uma espera lenta. Uma alegria sem nome. É um retrato de nós mesmos. O livro é uma máquina de tortura. Não é preciso entender um livro. O livro é sempre uma felicidade, uma alegria. Diz que é como tirar coisas do cimo de um armário velho, por vezes vem uma lâmpada, outras vezes vem pó e noutras vem um livro.

Convocou José Cardoso Pires, um amigo, um homem sem inveja. Um dia telefonou ao Lobo Antunes e disse “- É para te dar os parabéns porque recebi um prémio”

Diz ainda que a fama é a soma de equívocos atrás do homem.

Gosto muito de ouvir António Lobo Antunes, o seu discurso é cru, sem temperos, mas de um sabor fantástico, autentico. Cheio de histórias para contar, muitas imagens. Confesso que nunca o li, ainda não entrei na sinfonia dele, não consegui apanhar o ritmo e notas musicais dos seus livros. Talvez seja preciso mais maturidade. É assim que eu penso quando não consigo entrar no livro.

Depois veio Valter Hugo Mãe, contou o processo do livro a propósito de uma personagem que faz parte do livro e que todos ficamos a conhecer, trabalha no museu. Valter Hugo Mãe conheceu-o num dia que estava numa esplanada com uma amiga, essa pessoa veio cumprimentar amiga, disse que ia fazer uma breve visita ao museu com um padre italiano se eles estavam interessados, assim foram e Valter Hugo Mãe diz que conheceu o museu com outros olhos. Uns meses depois, quando o livro estava quase feito, Valter Hugo Mãe telefona-lhe a perguntar se importava de ser uma personagem do livro. A resposta foi afirmativa e nem pediu o livro para ler antes.

Agradeceu aos leitores pela generosidade de o ler, porque ler um livro é uma grande generosidade para com o escritor. Serei generoso também..

Ouvi muitas histórias em volta dos painéis de São Vicente de Nuno Gonçalves. As personagens. Uma das Histórias foi a forma como se colocou os painéis na posição correcta e partiu de uma conversa de café entre Almada Negreiros e José Bragança em que este último dizia que os painéis estavam mal colocados, baseava-se na perspectiva do quadro. Resolveram ir ao Museu para observar o quadro. Almada Negreiros lá desenha perspectiva baseada no chão e chega-se a conclusão que estavam realmente mal colocados. Almada Negreiros ficou com a fama de ter resolvido o problema e isso levou haver pancadaria. Bons tempos aqueles em que se andava a batatada por causa dos painéis de São Vicente  de Fora. E porque são de Fora? Onde está são Vicente? Qual é o O Infante D. Henrique? Valeu a pena ouvir todas as histórias à volta dos Painéis.

Uma noite cheia de histórias, uma noite magnífica.

Daniel H. Pink


” A Nova Inteligência” é um best seller internacional de Daniel H. Pink. Embora pareça um manual ou um livro de auto-ajuda, não o é. Este livro mostra-nos uma mudança cultural que está ocorrer na nossa sociedade contemporânea. A valorização das competência ligadas ao lado direito do cérebro, o responsável pela a emoção, pela criatividade, etc. Daniel acredita que em cada instituição, em cada empresa irá haver no futuro um “poeta” de serviço. Só por isso vale a pena devorar este livro. Mas garanto-vos que daqui surge muito mais, coisas surpreendentes.
No Primeiro capitulo ele faz uma abordagem sobre os variados estudos sobre o funcionamento dos dois lados do cérebro, mas de uma forma cativante, contando boas histórias, na verdade sente-se a empatia. Sabiam por exemplo que embora o lado esquerdo do cérebro seja responsável pala compreensão de um texto, mas é o lado direito que o contextualiza-o, relaciona-o e percepciona a emoção – o que faz com que quem leia uma obra de literatura e que tenha lesões no lado direito do cérebro, não vai compreender as metáforas, não se vai emocionar nem vai contemplar esse texto literário. Fantástico 2-0 o lado direito está a ganhar. Mas vai ganhar muito mais, sabiam que nas universidades mais conceituadas dos E.U.A. os estudantes de medicina estudam pintura e teatro. Porque será? Não digo, se quiserem leiam este maravilhoso livro.
No segundo capitulo Daniel Pink apresenta-nos os Seis Sentidos da era conceptual (que é esta nova era que está a surgir depois de uma era do conhecimento). Os seis são Design, História, Sinfonia, Empatia, Diversão e Sentido. Saio da leitura deste livro com mais certeza que os currículos escolares tem urgentemente que mudar, para nos prepararmos para os desafios desta nova Era. É necessário aulas de teatro, dança, música, artes, riso e conversa em vez de as imensas horas que os nossos alunos passam a decorar o aparelho digestivo, os acontecimentos sociais que estão na base da revolução francesa ou ainda o presente do conjuntivo do verbo ser porque pouco se chega a ser com estes programas de ensino.
Deixo-vos com os vídeos de Daniel H. Pink das conferências da TED