António Lobo Antunes em Coimbra

Foi na sexta dia 5 de Março de 2010, na Almedina em Coimbra. Arrastado por uma vontade que não foi só minha, fomos ouvir o que António Lobo Antunes tinha para nos dizer. Por nós tínhamos ficado a ouvi-lo a noite inteira, mas eu acho que ele estava com uma curiosidade enorme em ler o livro que estava no saco e arranjou a desculpa que tinha que estar na Figueira da Foz às dez da noite (de Coimbra à Figueira são mas de 3 horas de caminho se formos a pé). Mas pouco interessa estas intrigas. Eu quero é ver António Lobo Antunes vivo e feliz. Na verdade aqueles olhos a olhar para dentro do saco foi um dos ingredientes que nos fazem gostar de Lobo Antunes. Eu, novo nas lides de ser fã de Lobo Antunes e confesso que nunca li um livro dele, mas ambiciono ler a obra toda dele de seguida depois de conseguir ler o primeiro livro. Gosto do o ouvir, porque ele fala com alma, diz a verdade toda que tem dentro. Mas vamos agora às coisas que valem a pena falar:

Sobre contar histórias diz que pouco interessa, que não lhe interessa a intriga, interessa-lhe “colocar a vida inteira entre as capas de um livro”. Sobre as perguntas que nunca respondeu a quem lhe perguntava disse “As pessoas perguntam o que querem e eu respondo o que me apetece”. Eu fiquei com a sensação que não era preciso ninguém a perguntar nada, deixava-o falar, desenrolar o fio da conversa e, nós os espectadores, percorríamos os caminhos da conversa dele, mesmo em monólogo era formidável. Mas infelizmente lá estava alguém a interromper e a continuar a perguntar. António Lobo Antunes subvertia o jogo, e respondia a outras perguntas que vinham da cabeça dele. Diz ele que os jornalistas chegam com a imagem que adquiriram e querem que nós nos colamos a essa imagem – “Eles estão a querer que eu seja o que pensam de mim”.

Depois falou da terra. Falou do sítio onde nasceu a propósito do próximo livro que vem ai e que já entregou à editora, sairá em breve. “O local onde nós fomos felizes é o local onde nascemos.” Falou dos cheiros da terra onde nasceu, dos sítios onde brincou e que sempre que regressa sente tudo, as pessoas que conhecem a mãe e que se lembram dele em pequeno. Ele falou desse regresso à terra.

A doença, diz que na doença tudo é mau. Que todos são falsos, os médicos dizem “estamos com melhor cara” como se fosse plural, como se ele fosse tão capaz de empatia que ficava com a cara do doente. E as visitas que chegam ao hospital e antes de entrar no quarto disfarçam as suas caras de preocupação e tristeza e fazem uma cara de boa disposição, uma disposição que não existe. Falou da dignidade perante a morte de alguns doentes que estavam no hospital a fazer a quimioterapia. Da capacidade e coragem e avançar para a morte, avançar com a melhor roupa. Falou dessa coragem. Disse que a melhor coisa que sentiu foi quando foi anestesiado para uma operação o anestesista intercalou a sua mão na dele, que é bom sentir o contacto humano.

Falou da emoções e do amor “o amor é uma atenção delicada”, disse que por vezes deixamos de ser atentos ao outro e que aos poucos deixamos de amar. Contou a história de um casal onde acabou o amor. Quando o homem perguntou porque é que ela deixou de o amar, ela disse-lhe que foi ele que o deixou de amar, visto que durante muito tempo, sempre que saia de casa olhava para ela no cimo das escadas e que deixou de fazer isso. Por vezes deixamos de fazer as coisas mais importantes da vida.

Falou que não escreve para os leitores, citou um ou outro escritor que o faz, maus escritores, diz ele. Diz que não precisa descer, tem que ser o leitor a subir, a encontrar a chave. Eu ando à procura dessa chave. Ando a tentar chegar às obras de Lobo Antunes, um dia vou conseguir ler. Alguém disse no fim que para ler António Lobo Antunes temos que descobrir os indícios, ora no inicio, ora no meio do livro para conseguirmos perceber a narrativa.

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One thought on “António Lobo Antunes em Coimbra

  1. é o verbo!
    o início; e, como nasci perto dele, conheço os mm, cheiros+os da igual guerra, onde tb estive perto dele por outro amor.
    Dp vai tudo dar ao mm, no afecto: naquela anestesia, onde essa mão que nos toca, entrelaça, ou não entre os dedos, ou toca no ombro é a +maravilhosa sensação de alguém q nos diz:-«vou tentar não te matar!» Como qq coisa oposta à violencia banalizada de várias formas.

    É de ler tudo, é.

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