Quem tramou ensino artístico?


Tenho ouvido discursos inflamados pelo fim da disciplina de EVT por parte de pessoas que outrora deram uma primeira machadada na área artística. Essa primeira machadada foi quando se juntou duas disciplinas numa só Educação Visual e Trabalhos Manuais ficaram numa única disciplina de Educação Visual e Tecnológica, foi na reforma curricular de 1990 no governo de Cavaco Silva. Muitos problemas surgiram nessa altura que nunca foram resolvidos, entre eles enumero dois: Um desentendimento generalizado com pessoas de formação completamente contrária os professores de Trabalhos Manuais e os professores de Educação Visual – em muitas escolas esse desentendimento continua muito presente e nunca foram na realidade resolvidos através da formação continua de professores; outro dos problemas foi um programa muito pouco claro e objectivo apenas com generalidades e sem se compreender um rumo. Na reforma curricular de 1990 não me lembro de muita contestação em relação ao facto de se perder tempo curricular nas duas disciplinas, o corte no número de professores (visto alterarem de 2 de TM e 1 de EV para apenas um par pedagógico), pelo contrário vi uma associação de professores muito empenhada nesta reforma (a mesma associação de professores que eu pertenço e que está a contestar – e muito bem – o fim de EVT). Eu vou ser prejudicado com esta reforma curricular que está a ser preparada, mas enervo-me muito quando os mesmos interlocutores que promoveram a reforma anterior (a primeira machadada no ensino artístico) estão agora a reclamar o fim do par pedagógico. É por isso a minha ausência nas manifestações, não posso estar ao lado desta contradição, dessa incoerência.
Eu por mim gostaria de ver uma mudança no ensino, gostaria de ver uma disciplina de arte, com um professor a leccionar (com a sua autonomia) e com 3 blocos semanais (270 minutos). Era uma forma de equilibrar o currículo.

No fundo do poço


Num dos livros de Murakami “Crónica de um pássaro de corda” a personagem principal refugias-se no fundo do poço durante uns dias, descreve todas as sensações que encontrou ai, depois há uma adolescente que o ajuda a sair do poço. Mas conheço quem nunca mais saio de lá, aos poucos foi incapaz de trepar e foi-se esmorecendo. Primeiro foi viver para um vale escarpado, com poucas possibilidades de sair, foram poucos os que o visitaram, era difícil o acesso. Não havia um sorriso honesto de amizade por parte dele, não havia uma gargalhada depois de uma boa anedota, não havia nada, apenas uma amargura constante e um queixume continuo. São muitos aqueles que iniciam assim, entre queixas, segredos e intrigas para depois irem viver para o fundo de um poço.

Andar de bicicleta no Porto

Hoje resolvi dar uma volta diferente, peguei na minha bicicleta fui até à estação de Aveiro e apanhei o comboio para São Bento. Na minha mochila, além do cadeado, câmara de ar, remendos para os furos, levei também o meu livro. A viagem de comboio faz-se muito bem com um livro na mão, também podemos, em alternativa, observar as pessoas. Eu fiz as duas coisas. Em São Bento desci a rua Mouzinho da Silveira e fui direito à foz e depois Matosinhos – visto que o meu destino era conhecer a loja “Velo Culture” no mercado municipal de Matosinhos. Digo-vos que a viagem até Matosinhos faz-se muito bem, melhor do que de carro, além das ciclovias, a estrada naquela hora fazia-se bem sem grandes confusões. Atravessei ainda a ponte para Leça. Sobre a loja “Velo Culture” esperava encontrar mais coisas, no entanto, estes dois sócios estão a começar este negócio e já nos facultam bicicletas que não existem em muitas outras lojas, marcas caras mas também as acessíveis (o caso da pasteleira da órbita). Muitos outros artigos de bicicleta, chapéus, capacetes, cadeados, livros e as bicicletas fixed que foi a principal razão da minha deslocação. A simpatia de Miguel Barbot que tem o blogue um pé no Porto e outro no pedal (blogue que teve na origem da loja). A vinda foi feita pelo mesmo percurso, visto que tinha que estar em casa à hora de almoço e queria ainda passar pela Douro Bike (outra loja de bicicletas no Porto) mas que infelizmente estava fechada.

 

Rota da Lampreia – rescaldo

No dia 19 de Fevereiro fiz a minha segunda prova de btt. Desta vez foi em Penacova – “Rota da lampreia”. Entrei na Meia-Maratona com o nº579 fiquei em 91º e 17º do meu escalão vetB. O meu desempenho na prova foi fraco para o desempenho que tenho tido nos passeios de bicicleta pela região. Primeiro perdi-me 3 vezes o que fez passarem por mim muitos dos adversários, tive que voltar a ultrapassa-los o que me desmoralizou um pouco. Depois não estava habituado a este tipo de terreno, muito acidentado cheio de percursos muito técnicos e subidas acentuadas. Penso que as subidas foi o que me possibilitou fazer mais ultrapassagens. No final estava muito esgotado, pensei que se tratava de 35km e no último posto informaram-me que tinha havido um engano nos cartazes e eram 40km. Os últimos 6km foram de sofrimento absoluto. Relativamente a este tipo de prova não é o que eu mais gosto no btt, prefiro os passeios com os amigos, onde se desfruta e explora a paisagem. nas provas é sempre a correr, com muita concentração para não cair e parece que vamos sozinhos. Senti muita solidão nesta prova e um grande sofrimento até à meta. Quando ultrapassei a meta senti uma alegria enorme de ter conseguido ultrapassar este obstáculo afinal faço btt há 8 meses. Fizeram comigo a prova os meus colegas de equipa Daniel Carvalho que teve que desistir por partir uma peça da bicicleta (estava nos 10 primeiros), o Rui Campos que ficou em 47º e 3º de veteranos B (grande campeão) e o José Silva que ficou em 119 e 25 de Veteranos B. Estão todos de parabéns, afinal participamos e fomos todos até ao fim (excepto o Daniel que desistiu por força maior – mesmo com a peça partida ainda cortou a corrente para colocar numa única mudança – em regime de single speed, seria sempre muito difícil).


Alguns dos percursos eram muito técnicos e perigosos.

A última descida

“O mapa e o território” de Michel Houellebecq

 
Este livro conta a história de uma artista plástico que atinge o ponto alto da sua carreira com uma série de retratos de sujeitos (alguns conhecidos) nas suas atividades profissionais, criando um impacto simbólico através das posses, cenários e olhares que criou. Ao mesmo tempo Houellebecq faz um autorretrato claro de si, visto que se torna personagem do livro e ao mesmo tempo vitima de um assassinato medonho. De repente o livro, torna-se também num policial interiorizando todos os estereótipos da literatura policial. No fundo Houllebecq faz uma paródia de si, do mundo artístico e da literatura. É um livro fabuloso e de certa forma didático, para quem como eu, tenta compreender a arte e culturas contemporânea.

Os Guiliaks na Sacalina

Os Guiliaks na ilha Russa de Sacalina caracterizados no livro de Tchékhov “A Ilha de Sacalina” e evocados por Murakami no livro “1Q84” tem características apaixonantes:

1 – “…os guiliaks consideram o trabalho no solo como um grande pecado; qualquer pessoa que que cave a terra ou plante qualquer coisa morrerá cedo. Porém comem com grande prazer o pão, que conhecem por intermédio dos russos, e consideram-no um acepipe.”

2 – “Só mentem quando fazem negócio ou quando falam com pessoas suspeitas e, na sua opinião, perigosas, mas, antes de dizerem uma mentira, trocam olhares entre si, num gesto absolutamente infantil. Repugna-lhes toda a espécie de mentira e bazófia no decurso da vida quotidiana, mas não no âmbito dos negócios.”

3 – “Os guiliaks desempenham conscienciosamemente as tarefas que lhes confiam, e não há memória de um guiliak abandonar o correio a meio do caminho ou apropriar-se de bens de outra pessoa.”

4 – “São alegres, sensatos, bem dispostos e não sentem qualquer constrangimento na presença de ricos e poderosos. Não reconhecem nenhum tipo de autoridade e, segundo parece, nem sequer tem o conceito de superior e inferior”

5 – ” A dificuldade que têm para nos entender pode medir-se pelo simples facto de, até hoje, ainda não terem compreendido qual a finalidade das estradas. Mesmo nos sítios em que se construiu uma estrada, eles ainda viajam através da taiga. É frequente vê-los, com a família e os cães, a abrir caminho, em fila indiana, num pântano ao lado da estrada.”

Ilha de Sacalina

Livro de Tchékhov