José Fanha

 

Não sei se vos falo do José Fanha o GRANDE PROFESSOR ou o José Fanha o GRANDE POETA, como não percebo nada de literatura e como o Fanha foi meu professor, vou preferir falar do professor:

Grande parte das vezes saíamos da escola para falarmos sobre as coisas que interessam (poesia, cinema, arte e vida), fosse onde fosse – mesmo dentro da sala – as aulas de História de Arte eram vibrantes, era mais do que história, eram uma espécie de cinema onde o realizador nos propunha várias perspectivas e planos de acção. Descobríamos sempre uma ligação entre nós e as personagens principais. O Fanha promovia as ligações, o Fanha ligou-nos ao mundo, o PROFESSOR era uma espécie de electricista, engenheiro de telecomunicações, telefonista que estabelecia hiperligações. Ensaiava uma roda que nunca parou. Lembro-me uma noite que estivemos ao lado do Carlos paredes e do António Vitorino de Almeida, um tocava e o outro falava sobre o “coca cola killer”, outra vez fomos ver Brecht – Ascensão E Queda Da Cidade De Mahagonny – ele fez os putos adolescentes gostarem de ópera e serem fans de Bertolt Brecht. Outra noite fui com ele à Ritz Club, apresentava-nos com um orgulho fantástico “estes são os meus alunos” como se fossemos nós a estrelas e os outros apenas actores, músicos e pintores, como se nós fossemos os mais importantes seres vivos daquela sala – colocou-me na mesa da Maria de Céu Guerra a falar de igual para igual, quem sou eu para estar ali. Grande parte das aulas eram no café ao lado da escola, num ambiente informal aprendíamos mais do que na escola.
Uma vez o Fanha disse assim na casa do Alentejo num jantar de caridade onde ia declamar poesia: “este Poema é dedicado aos meus alunos que estão ali naquele canto – ponham-se lá de pé (ordenou ele)”. O poema era este:

Romance ingénuo de duas linhas paralelas

Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim…!”

Diz a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada

Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.

(José Fanha, in Eu Sou Português Aqui)

No final das aulas o Fanha dizia sempre
“Por hoje é tudo. Abram as portas. Podem sair”
Eu acho que este poema também era para nós:

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.
No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como se gastam tostões.
Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas, de novo voltam a ser.
Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.
Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

José Fanha, 1985. Cartas de Marear.

Obrigado Fanha, eu escrevi dentro do peito que tenho asas e sei que elas voltam a nascer depois de arrancadas e sei também que o infinito é logo ali. vou lá todos os dias!

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Leonardo Cohen

 Músico e poeta Canadiano que influenciou a música e a poesia dos anos 60 – os seus primeiros álbuns são duma beleza singular.

http://www.leonardcohen.com/

Fica aqui a letra de “Suzanne “:

Suzanne takes you down to her place newer the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that shes half crazy
But that’s why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from china
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you’ve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind.
And jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you’ll trust him
For he’s touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes you hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From salvation army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For she’s touched your perfect body with her mind.

Antoni Tàpies

 

 
Pintor Catalão, Antoni Tàpies nasceu em Barcelona 1923. O budismo tem muita importancia na obra de Tàpies, considera-se um cidadão interventivo politicamente e socialmente. É uma referência na cultura europeia com o Informalismo e Arte Pobre. É um homem da cidade, inflenciado pela cultura urbana no que tem de mais essencial: as marcas, os grafites nos muros, os sinais, a luz, o movimento. Todos os elementos gráficos da cidade são matéria de trabalho. A geometria de Tàpies é provocadora, não nos deixa indiferente. Em Barcelona é fundamental visitar a Fundação Tàpies (http://www.fundaciotapies.org/) e o bairro gótico onde os muros furados pelas espingardas na guerra civil são um paralelismo à obra de Tàpies.

 

Aprender a rezar na Era da Técnica – Gonçalo M. Tavares

 

Acabei de ler este livro, que achei magnifico. A vida de um médico/político que com o seu mundo peculiar vai-se apoderando das coisas.
Um excerto que nos ilustra algo de familiar:
“O que espantava mais Buchmann era como o medo e a velocidade, a determinada altura, se misturavam, deixando de ser possível apontar alternadamente para um e para outro. Estava-se já perante uma nova substância – como o hidrogénio e o oxigénio na molécula de água – substância (medo/velocidade) mais explosiva que dinamite.
Ou, talvez com mais exactidão: o grande rastilho do mundo, pois essa mistura não era ainda a explosão mas o trajecto que terminaria na grande explosão. Seremos tanto mais fortes, dizia Buchmann a Kestner nas suas conversas sobre estratégia, quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem.”

Romance ingénuo de duas linhas paralelas – José Fanha

Duas linhas paralelas
muito paralelamente
iam passando entre estrelas
fazendo o que estava escrito:
caminhando eternamente
de infinito a infinito.

Seguiam-se passo a passo
exactas e sempre a par
pois só num ponto do espaço
que ninguém sabe onde é
se podiam encontrar
falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
uma delas certo dia
voltou-se para a outra lina
sorriu-lhe e disse-lhe assim:
“Deixa lá a geometria
e anda aqui para o pé de mim…”

Diz-lhe a outra: “Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
temos de ir devagarinho
andando sempre a direito
cada qual no seu caminho!”

Não se dando por achada
fica na sua a primeira
e sorrindo amalandrada
pela calada, sem um grito
deita a mãozinha matreira
puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
as duas a murmurar
olharam-se docemente
e sem fazerem perguntas
puseram-se a namorar
seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
fica uma história banal
com linhas e entrelinhas
e uma moral convergente:
o infinito afinal
fica aqui ao pé da gente!

(José Fanha, in Eu Sou Português Aqui)

Piet Mondrian

 

Piet Mondrian nasceu em Amersfoort(Holanda) a 7 de Março de 1872 e morreu em Nova Iorque a 1 de Fevereiro de 1944) foi um pintor Holandês modernista. Participou do movimento artístico Neoplasticismo e colaborou com a revista De Stijl. Os seus trabalhos mais conhecidos são os quadrados coloridos, agrupados assimetricamente, os blocos segmentados de linhas rectas e cores primárias.

Peter Halley

 



Peter Halley nasceu em Nova Iorque. De 1967 a 1971 estudou na Phillips Academy em Massachusetts. Licenciou-se em História de Arte a Universidade de Yale, New Haven(1975). Tirou o M.F.A. na Universidade de Nova Orleães, Louisiana (1978), e no mesmo ano teve a sua primeira exposição individual no Contemporary Art Center de Nova Orleães. Influenciado pela musica pop e pela new wave a sua pintura tem um grande impacto visual da forma como utiliza a cor. A geometrização abstracta é muito evidente. Parecem-me circuitos eléctricos.
“Peter acreditava na desestruturação das linhas e da composição e de uma geração na qual ele colocava interrogações nos elementos formais do Abstraccionismo, porque ele dizia, até mesmo os trabalhos abstractos de Mondrian não só carecem de uma reflexão na direcção de modelos idealistas mas também poderiam ser um modo mais simbólico de se utilizar estes elementos e, na verdade, quando vocês lêem textos de Mondrian, nota-se que há mais por trás dos aspectos formais do trabalho, e isto é o que Peter Halley reforça quando ele faz este tipo de circuitos . Então estes são os tipos de circuitos que continuam, que cruzam outras formas. Para Peter Halley estes circuitos reflectem elementos do fazer combinações, trajectórias, que nós temos também nas cidades, no tráfego, nas linhas dos fios de electricidade, então, isto reflecte mais elementos que estão além do aspecto formal também” in Wikipédia