Irreverência ou a formiga no carreiro


Gosto da irreverência, gosto do exercício da irreverência. Mas por vezes existe um equivoco muito grande deste conceito. Na escola é comum confundirem uma criança mal educada e mimada com uma criança verdadeiramente irreverente. A diferença é grande, vou tentar dizer o que penso desta diferença.

Nós necessitamos, para vivermos em sociedade de cumprir regras. Quando vamos de carro, por exemplo, paramos nas passadeiras para deixarmos passar os peões. Não fazer isso não é um acto de irreverência, é um acto de pouca consciência social associado à falta de civismo. Na sala de aula, tenho vindo a tentar cuidar a situação das regras de trabalho, por respeito a mim e principalmente por respeito aqueles alunos que podem ser mais sensíveis ao caos. Por isso este ano lectivo procurei fazer respeitar as regras. Por exemplo numa aula de guache não permito que os alunos se levantem durante a aula com um godé ou pincel com guache visto que este pode cair em cima do trabalho dos colegas. Por vezes existem alunos que tem alguma dificuldade em compreenderem o exercício da cidadania com esta e outras regras. Então, habituados que estão a viverem sem muitas regras, não as querem cumprir. Os acidentes acontecem, por vezes perturbando os outros. O que me interessa referir aqui é que existe esta ideia reafirmada que este tipo de atitude é pura irreverência (alguns pais exibem com orgulho esta forma de estar), por vezes dizem que a escola tenta moldar a criança. Talvez seja verdade, mas os alunos verdadeiramente irreverentes existem, eles são pessoas sensíveis, criativas, originais, detestam situações de caos e mostram a sua inteligência de outra maneira. Percebemos nos diálogos, na qualidade das intervenções, no sentido de humor (não estereotipado), no desenvolvimento do seu trabalho. Por vezes, os pseudo irreverentes, não chegam aqui, ficam a ver os morangos com açúcar e os anúncios do sumol, convencidos da sua irreverência andam como formigas no carreiro. Gosto de todos, porque acredito que ainda se possa fazer alguma coisa e não desisto mesmo que o caminho seja sinuoso.

One thought on “Irreverência ou a formiga no carreiro

  1. Mais uma vez sinto-me impelida a escrever, embora com a consciência de não ser especialista nestas matérias de carácter sociológico, restam-me as do foro pedagógico. Faço-o, em primeiro lugar, porque estou de acordo com o meu Colega e Amigo T. C. e em segundo lugar, porque, nós professores, cada vez mais temos como função, não apenas a mera transmissão de conhecimentos, mas a preocupação de estarmos atentos aos sinais de mudança que se reflectem nos comportamentos dos mais pequenos que nos são confiados.
    Bem mais jovem do que eu, logo com percurso de vida ditado por tendências e convulsões sociais que surgiram após 74, e que foram determinantes na mudança radical que se efectuou nas questões da educação e do ensino, nas relações pais|filhos|escola (e demais elementos circundantes, que não irei mencionar) e ainda numa nova forma de vida, pautada e imposta pelas regras do consumismo. O meu Colega e Amigo T. C. surpreende-me todos os dias. O seu espírito aberto e desprendido face ao materialismo reinante e obsessivo, a sua preocupação com a educação dos jovens, a sua visão de futuro em termos relacionais e culturais, aproximam-se das minhas posições, atitudes e valores em que acredito e que tenho procurado defender e incutir junto dos mais jovens. Por vezes, o T. surge-me como um pequeno “Velho do Restelo” (desculpa-me…), mas no sentido mais positivo que se possa encontrar nesta expressão – alguém com a capacidade de vislumbrar, no horizonte de um futuro próximo, um mundo desumanizado, egocêntrico, materialista, caótico, onde haverá espaço para tudo menos para o respeito para com o outro, isto é, as regras serão ditadas à medida das vontades e interesses. Ou não é “de pequenino que se torce o pepino”? E ele tem vindo a ser torcido neste sentido – no vazio, na futilidade, na inutilidade das coisas, na disputa agressiva, no desrespeito. Salvaguardo aqui os casos de excepção que felizmente ainda são em número razoável, a meu ver.
    Não tenhamos dúvidas. Algo vai mal. Muito mal. Como dar a volta a esta situação será um desafio para quem de direito. Urge encetar um trabalho rigoroso e sério neste campo, sem o qual, a voz da escola, representada nos PROFESSORES que ainda acreditam ser capazes de contribuir para a mudança das coisas, se vai diluir, extinguir… Postura céptica? Talvez. Contudo, todos os sinais de alerta que nos chegam, nomeadamente através dos apelos lançados no mundo das artes, indicam-nos que a instabilidade que nos circunda acarreta consigo uma carga explosiva que parece pronunciar um novo “big bang”.
    Lembro-me sempre de Mvnch e do movimento expressionista. Um novo “Grito” irá surgir, por certo… à medida da actualidade.

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